Se a imaginação for a maior das armas, de que forma pode um governo proibi-la? A resposta está entre as páginas de “A Biblioteca do Censor de Livros” (D. Quixote, 2025), romance de Bothayna Al-Essa que esteve entre os finalistas do National Book Award para literatura traduzida.
Sátira ousada, com referências a grandes clássicos da literatura, fala-nos de um mundo sombrio governado por tiranos, que reconhecem o poder de um bom livro e da imaginação e os condenam. Neste Novo Mundo, as palavras são pólvora e a opinião dá direito a pena de morte.
Mergulhamos nesta distopia (pouco distópica face aos tempos que vivemos) pela mão de um Censor de Livros, que tem como missão negar a publicação de obras literárias duvidosas, procurando nas mesmas temas proibidos e obscenidades – como a homossexualidade, religiões não aprovadas e a vida antes da Revolução. Um Censor que acaba por se transformar num leitor, um ultraje perante os todos-poderosos, e que mudará o seu fado. Enquanto censura frases de amor, da Internet e contra o regime, volta a ter a capacidade de pensar e de imaginar para além do que lhe é imposto.
Os personagens dos livros que lê invadem-lhe os sonhos e, atraído pelo canto das “sereias”, o Censor de Livros vê-se obrigado a alimentar a sua imaginação com mais livros, cada vez mais “perigosos”. As suas noites são passadas numa outra dimensão, totalmente proibida pelo governo, mas onde encontra paz e se sente realmente feliz. Esconde em casa, entre os trajes sem graça que o obrigam a vestir, livros de todo o tipo e a sua filha “Alice” – que vive, ela própria, no seu País das Maravilhas.

Com o objectivo de salvar alguns dos livros mais importantes da história e da cultura, o Censor cruza-se e alia-se aos combatentes da Resistência – um secretário peculiar, uma livreira clandestina e vários bibliotecários fora-da-lei -, personagens cruciais desta e de outras histórias.
Um livro fascinante sobre o poder dos livros, do pensamento e da imaginação que é, simultaneamente, uma chamada de atenção e uma ode às obras literárias. A autora, natural do Kuwait, destaca neste romance o poder da literatura, da liberdade de expressão e da democracia, alertando para o facto de os livros serem peças fundamentais da nossa história, mantendo viva a memória colectiva.
“A Biblioteca do Censor de Livros” é um grito de alerta que não deve ser ignorado. Que nunca nos esqueçamos das nossas origens, das lutas passadas e das consequências vividas por escolhas intelectualmente cobardes. Um regime que condene a imaginação, o pensamento crítico e a subjectividade não é um regime de bem. Que tenhamos sempre cautela, e que nunca deixemos arder em praça pública a nossa esperança, que continuemos a ler livros que nos permitem ver além do que nos é mostrado.











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