Assina no cartão de cidadão como Teresa Esteves da Fonseca, o mesmo nome que surge impresso em “A Morte não tem Pátria” (Poesia Impossível, 2023), fulgurante livro de poesia onde descobrimos, depois de uma conversa com a Ceifeira para falar do “fausto buffet” que a vida oferece, os mais belos epitáfios. Na música, pegando no legado de Fernando Pessoa, escolheu Esteves Sem Metafísica – do poema Tabacaria – como heterónimo, tendo-nos brindado há cerca de um ano com “de.bu.te.” (FlorCaveira, 2025), disco habitado pela vulnerabilidade que traz a poesia para um universo pop onde não se circula a mais de 50 km/hora, num convite a fruirmos da lentidão. Entre a música e a poesia, a física e a metafísica, o Deus Me Livro flutou no universo de Teresa Esteves da Fonseca.

A Metafísica é aquilo que separa a (tua) Poesia da Música?
Talvez a metafísica seja precisamente aquilo que as une, e a física o que as separa. Vindo ambas do mesmo sítio, a poesia desagua em tinta, e a música em vibrações a viajar pelo ar.
Quando te sentas a compor já sabes ao que vais – um poema ou uma letra para uma música –, ou há sempre alguma incerteza durante esses primeiros versos?
A grande maioria das vezes não sei exactamente ao que vou. E quando já vou com uma ideia demasiado estruturada, tenho dificuldade em não andar às marteladas a tentar encaixar tudo. Gosto de ter só um esqueleto e deixar espaço à intuição, ou então ir mesmo às cegas e esperar quer saia alguma coisa de jeito.
Em “proposição”, tema inaugural do teu “de.bu.te” musical, encerras com um excerto de Tabacaria, de Álvaro de Campos, poema de onde saiu também o teu alter-ego musical: Esteves Sem Metafísica. Este é, à imagem de Fernando Pessoa, um heterónimo de Teresa Esteves da Fonseca?
Acho que é mais um “quem me dera” que propriamente uma heteronímia. Ou seja, uma pseudo alteridade baseada no erro clássico de achar que seria mais fácil “ah, poder ser tu, sendo eu”. Ou então não é tão profundo quanto isso, e trata-se só de um nome artístico para não ter de me apresentar em palco com alma de rock, mas nome de contabilista.
Se o título do livro nos reserva já algum grau de premonição – “A Morte Não Tem Pátria” -, esta adensa-se ainda mais com os versos que lhe servem de dedicatória: “a todos os que me deram a saborear a morte, / e a todos os que dela me salvaram”. Poucas páginas à frente, damos de novo de caras com a ceifeira: “talvez a morte me saiba dizer / onde escondeu o meu sentido”. É o confronto inevitável com a Morte que ilumina e dá sentido à tua escrita?
O confronto inevitável com a Morte é o que dá sentido, tensão, angústia e esperança à vida em geral. No grande plano das coisas, nascer é de uma probabilidade ínfima que depende de uma quantidade absurda de factores aleatórios. Morrer é uma certeza absoluta. É uma certeza dramática da qual muitos se tentam esconder, enquanto outros se tentam divertir com o medo que ela nos dá. Apesar de tudo, prefiro estar neste segundo grupo.
“uma mesa de tortura / cujo maior castigo / é não morrer”. Será esta a melhor descrição para o momento poético ou, como lhe chamas, a sala de espera da poesia?
Quando escrevi isto estava a falar de uma coisa muito mais dramática do que o “momento poético”, era a própria vida que eu estava a maldizer. É uma espécie de versão trágico-portuguesa do “I don’t want to die / I sometimes wish I’d never been born at all” do Freddie Mercury.
A tua missão criativa e existencial caberá nestes versos? “Escrevo / para ter liberdade / de respirar mais alto (…) Respiro / para ter liberdade / de escrever mais fundo”.
Estou há horas a olhar para esta pergunta sem saber como lhe dar resposta… Agora é que me tramou! Acho que a missão de uma pessoa – na vida ou na arte – é uma coisa que vai sendo desvendada ao longo do tempo. Gosto mais de lhe chamar vocação, na verdade. A minha pode caber nestes versos, mas também pode caber em muitos outros.
Dá ideia de que te divertiste a valer ao escreveres os vários Epitáfios que repousam nas páginas 37 e 38. Qual deles escolherias para decorar a tua tumba?
Quando escrevi esses epitáfios estava tristíssima com um enorme desgosto de amor. Lembro-me de estar a chorar copiosamente e escrevê-los todos de rajada. Visto de fora devia parecer uma cena de uma sitcom americana dos anos 90, visto de dentro parecia um drama indie europeu. Se tivesse de escolher um dos 10 para lapidar na minha campa seria o VII: “Aqui jaz esta senhora. / Boa esposa. Boa filha. Boa amiga / Péssima a fazer contas de multiplicar”. Contém muito do que sou: um desastre no que toca a números, mas humanamente até sou aceitável.

O alimento gourmet dos poetas é o (des)amor?
O alimento dos poetas é a Vida: a interior, a exterior, a agradável, a desagradável, a dolorosa, a jubilosa, a do amor, a do desamor, a visível, a invisível. Temos um fausto buffet constantemente à disposição.
O humor é também substrato para os teus versos, como descobrimos neste breve poema: “no labirinto imenso / há espinhos que não sei como tirar / por ter já as mãos doridas de procurar / por alguém que perceba de jardinagem”. Nunca pensaste em criar mais um heterónimo, este assumidamente virado para a comédia?
Gosto da minha personalidade trágico-cómica. Há sempre humor na minha tragédia, e há sempre tragédia no meu humor. São coisas que se alimentam mutuamente. Separá-las seria cortar-me às fatias, e suspeito que isso seria, no meu caso, menos interessante.
Há um poema colectivo que nos fala da solidão como “o único caminho para a eternidade / de que somos feitos”. Ao contrário de muita gente, que acende a TV só para ter companhia, pareces dar-te bem com ela (a solidão).
Há fases e fases, há solidões e solidões. Quando sinto que a solidão é perigosa acendo a televisão para ter companhia, outras vezes abro um livro para o mesmo efeito, ou oiço um podcast, ou invento uma coisa nova para aprender. Quando sinto que a solidão pode ser frutífera, deixo-me olhar ao espelho tranquilamente e em silêncio. Mas apesar de ser um tanto solitária, para mim nada bate uma boa companhia humana, é das melhores coisas deste mundo.
Daniel Faria, a quem dedicas um poema, foi um dos grandes? E estará António Variações presente no verso “Sou onde não estou”?
Variações acidental, Faria deliberado. Se calhar há ideias de outros que ficam tão entranhadas em mim, que depois as trabalho como se fossem minhas. O Daniel Faria é um dos grandes. Tal como os santos na tradição católica – uns são de altar, outros são anónimos e de devoção particular – a poesia portuguesa está cheia de canonizados e não-canonizados. O Daniel está na charneira!
Tal como Rosalía, despedes-te deste “A Morte Não Tem Pátria” em várias línguas, numa espécie de desafio à morte: “Morro / só de pensar na morte”. O que fazer até chegar o último dia?
Entreter-me da melhor maneira possível – por exemplo, a aprender muitas línguas. A razão da minha existência é-me completamente incompreensível. Já bati com a cabeça em muitas paredes na busca por uma resposta minimamente satisfatória. Não encontrei, e já me pacifiquei com a ideia de que nunca vou encontrar. Tenho de esperar pela morte para pedir satisfações a quem de direito!











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