“É a linguagem que nos torna humanos, que nos distingue dos animais, por um lado, e das máquinas por outro, que faz de nós seres com consciência própria, capazes de criar obras de arte, ciência e o todo da civilização. É a chave que permite compreender tudo.”
A concorrência entre a surdez e a cegueira é o mote de abertura da narrativa de David Lodge em “A Vida em Surdina” (Asa, 2026 – reedição). O professor universitário Desmond Bates partilha a forma como gere o quotidiano, progressivamente condicionado pela perda da audição, recorrendo a estratégias de sobrevivência para atenuar os efeitos da sua limitação. Rodeado de soluções funcionais que lhe permitem contornar os constrangimentos do dia a dia, resvala, com frequência, para uma espécie de rebeldia silenciosa, dando-se ao direito de não cumprir o que era suposto fazer: manter os aparelhos auditivos carregados ou admitir, perante o interlocutor, que não percebeu patavina do que lhe acabou de ser dito.
Uma reflexão sobre o impacto da reforma antecipada e a distância entre o sonho e a realidade é-nos apresentada através do testemunho do protagonista, na primeira pessoa, e da observação a que se submete, num registo que se confunde, por vezes, com o do próprio narrador. Bates reformara-se da universidade quatro anos antes da idade de referência, na expectativa de evitar o desconforto provocado pelas suas limitações auditivas e de se dedicar a outros prazeres, entre eles a escrita. O quotidiano revela-se, todavia, mais desafiante do que imaginara. A liberdade que antecipara não corresponde inteiramente às expectativas, e a ausência das rotinas profissionais deixa espaço a uma inquietação que não tinha previsto. A reforma surge, assim, (também) como um confronto com a perda de referências e a necessidade de reinventar uma identidade para lá da actividade profissional.
A descrição do quotidiano com a mulher constitui, por sua vez, um ensaio humorístico sobre a convivência prolongada de um casal e o apego que resiste ao desgaste do hábito. Entre pequenas contrariedades, cumplicidades e rotinas, Lodge retrata a intimidade sem idealizações, mostrando como uma relação se transforma com o tempo e como os afectos sobrevivem às inevitáveis adaptações da vida em comum. Também aqui o protagonista ensaia estratégias de sobrevivência, procurando preservar o equilíbrio entre a autonomia individual e a vida partilhada.
Resiliência com humor talvez seja a expressão central e definidora do livro. É através do humor, por vezes mordaz e auto-depreciativo, que Bates enfrenta as limitações que lhe são impostas, procurando conservar alguma liberdade e dignidade perante a progressiva perda de controlo sobre o próprio corpo. O riso não elimina o desconforto nem esconde a fragilidade; torna-a, antes, suportável.
Um outro tema emerge de forma particularmente impactante: o envelhecimento e a relação filial quando os afectos ficam entorpecidos pela degradação da mente e do corpo. O autor explora o confronto do protagonista com o seu próprio corpo – e o do pai – de forma assombrosa e emocionalmente intensa. A condição do pai, marcada pela perda de capacidades, confronta Bates com a vulnerabilidade de quem envelhece e a inevitabilidade de um futuro que, de alguma forma, reconhece como seu. A relação entre ambos ganha, assim, uma dimensão particularmente comovente: os papéis invertem-se, aquele que antes cuidava passa a necessitar de cuidados, e o filho vê-se confrontado com a dificuldade de reconhecer e acompanhar a transformação de quem sempre conheceu como figura de referência.
“A Vida em Surdina” é um livro divertido e profundamente comovente, pela forma como Lodge expõe a fragilidade do laço que nos liga à vida e a facilidade com que as marcas que julgamos deixar à superfície acabam por desaparecer. A surdez do protagonista e a experiência do envelhecimento do pai têm uma forte inspiração auto-biográfica, partindo da própria vivência de David Lodge. Essa proximidade confere à narrativa uma autenticidade particular, sobretudo na descrição dos pequenos constrangimentos da perda auditiva e das transformações que acompanham o envelhecimento. Não se trata apenas de escrever sobre aquilo que se conhece, mas de transformar uma experiência pessoal numa reflexão sobre uma condição universal. Se é a linguagem que nos torna humanos e nos permite compreender o mundo, o que acontece quando começamos a perder a capacidade de ouvir e de nos fazermos ouvir? Talvez permaneça, acima de tudo, a necessidade de continuar ligados aos outros, mesmo quando as palavras já não chegam ou deixam de fazer sentido.











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