É uma ladra, a protagonista de “Como Caminhar num Pântano” (Gradiva, 2026), de Marta Pais Oliveira. Gosta de roubar malas de senhora. Não se trata de cleptomania, tampouco o faz por dinheiro: o que pretende é “libertar” as mulheres do peso físico que trazem nas mãos, aproveitando os seus momentos de distracção. Será porque está só; ou porque os outros merecem; ou porque isso a faz sentir viva.
Talvez a razão se prenda com o facto de a narradora viver um processo de degradação física — o livro nunca nomeia a doença, prefere sugeri-la através de um corpo que dá “repetidos sinais de quebra”. Nunca sabemos ao certo o que a ameaça, e porventura esse é o ponto. A narrativa recusa-se a designar diagnósticos, não abre o jogo nem estrutura a história a régua e esquadro.
Marta Pais Oliveira é romancista, poeta, dramaturga, escreve livros infantis, peças de teatro e libretos para óperas — já trabalhou em jornalismo, publicidade e gestão. Essa polivalência reflecte-se na prosa, que pinta a história em pinceladas febris, um quadro abstracto, mais sensação do que enredo, uma narrativa que exige esforço activo do leitor para lhe encontrar o fio.
Um trabalho que se revela compensador, desde logo pela destreza da autora no manejo das palavras, no sentido de humor, nas frases luminosas e observações mordazes, quase entradas de um diário, numa narrativa que alterna entre a análise objectiva da terceira pessoa e o registo confessional da primeira. Uma alternância gramatical que é só a superfície. A narradora é, ela própria, construída como uma figura de duas vozes quase simultâneas, duas presenças narrativas a disputar o mesmo texto. Uma leitura para quem dispensa GPS e aceita caminhar sem saber muito bem onde põe os pés.











Sem Comentários