Foi, ainda o ano não tinha começado, um dos grandes acontecimentos literários de 2025: o anúncio da publicação, pela Companhia das Letras, da obra integral de Clarice Lispector, figura maior da literatura lusófona contemporânea. Até então, Clarice era uma daquelas personas que todos conheciam mas que muito poucos tinham em boa verdade lido, fosse pela dificuldade do mergulho na escrita – quase um exercício de apneia – como pela falta de exemplares descobertos nas livrarias. No FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, numa conversa conduzida por Rui Pedro Tendinha, José Vieira Mendes, Filipa Martins e Anabela Moreira tentaram responder à pergunta: este universo – o de Clarice – dá cinema?
Filipa Martins parece acreditar que sim. “Clarice tem histórias ricas do ponto de vista narrativo, repletas de imagens. Uma capacidade de condensar e sintetizar o indizível num único detalhe – uma metáfora, um aforismo. Uma capacidade de nos atribuir objectos mágicos, simbólicos – seja uma barata ou uma rosa -, que nos remetem mais cedo ou mais tarde para significados”.

“Chegaram a dizer-me que o que Clarice escrevia não era literatura, era bruxaria”, brinca a acrtiz Anabela Moreira, que disse escrever uma sebenta sempre que interpreta uma personagem, falando ainda no exercício interpretativo que o espectador tem de fazer e que vai além daquilo que a câmara mostra. No caso da matéria-prima de Clarice convertida para frames, “uma interpretação dos caminhos externos das personagens que são quase impossíveis de colocar em cinema, por serem sensações. O que abre caminho para interpretações várias”. Clarice é, aliás, considerada por Anabela Moreira como uma grande actriz – a par de Dostoievski. “Ela era estranha no sentido de ser única”.

Já José Vieira Mendes, cuja relação com a obra de Clarice Lispector se faz sobretudo das adaptações cinéfilas, tem algumas dúvidas sobre a conversão deste universo em matéria fílmica: “Como se filma uma escritora onde a acção acontece apenas na cabeça das personagens, os sentimentos de angústia, desejo e perda?”. Sobre a transposição para o grande ecrã de “A Hora da Estrela”, a última obra publicada em vida por Clarice, falou da centralidade numa figura única: “O filme funcionou, mas o universo passou a ser uma história normal. Existiram demasiadas concessões”. Mencionou ainda o pouco sucesso da adaptação de “O Livro dos Prazeres” (2020), realizado por Marcela Lordy, e falou de “A Paixão Segundo G.H.” (2023), com realização de Luiz Fernando Carvalho, “um filme experimental, muito difícil, que assentou sobretudo da interpretação de Maria Fernanda Cândido”, e que mais à frente resumiu como “um filme para ver com paciência mas muito bonito, lindíssimo”. O olhar de conjunto é, ainda assim, pouco favorável à captura da essência Lispectoriana: “Continuo a achar que todos este filmes são extremamente experimentais, e que para resultar minimamente precisam de actores e actrizes fabulosos”.
Fala-se depois das várias biografias de Clarice Lispector, entre as quais a de Benjamin Moser, provavelmente uma das melhores biografias que poderão ler sobre alguém – “Clarice Lispector: Uma Vida”, título da primeira edição portuguesa pela Civilização Editora. Um trabalho hercúleo de um norte-americano que, então com apenas 33 anos, capturou como ninguém a aventurosa vida de Clarice, abrindo a porta ao mundo para que entrassem, sem medo, na obra da escritora que nasceu na Ucrânia e se naturalizou brasileira em 1943. O livro acabaria por valer a Moser o Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural, concedido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Filipa Martins realçou o sentido de humor da escritora, “não fácil, profundamente trágico, um humor inteligente”, destacando a forma como trabalhava “o doméstico e o íntimo” – algo que Lucia Berlin trabalhou, de forma exemplar, no imperdível “Manuel de Limpeza para Mulheres”, sobre o qual escrevemos aqui. Rui Pedro Tendinha decide evocar “The Debut”, de Jesse Eisenberg com Julliane Moore e Paul Giamatti, como um filme que retrata esse doméstico de forma exemplar, ligando-o de alguma forma “ao humor trágico de Clarice”.

“É uma boa analogia”, concorda José Vieira Mendes. “Clarice era uma doméstica que, a certa altura, dá o grito do Ipiranga, tornando-se jornalista e percorrendo o seu caminho. A escrita foi uma fuga à solidão e ao isolamento”, diz, retomando o fio da meada do tema da mesa: “O cinema vive sobretudo de acção e de imagens fortes, pelo que é extremamente difícil captar os sentimentos que a literatura de Clarice transmite”.
O tira-teimas poderá (ou não) ser “Rio de Clarice”, uma longa-metragem que estreou em Agosto no Brasil, e que adaptou cinco contos de Clarice Lispector, tendo a realização sido repartida por cinco cineastas diferentes: Maria Luiza Aboim, Eunice Gutman, Nicole Allgranti, Taciana Oliveira e Barbara Kahane. As críticas dividem-se, umas elogiando o esforço, outras falando de inconsistências e algumas apontando uma imperfeição imperdível. Enquanto esperamos pela prova dos nove da estreia portuguesa, nada como mergulhar nos livros – talvez o único território fiel à inquietação interior de Clarice Lispector.
Fotos: Luísa Velez/ Deus Me Livro











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