“Sua Alteza, a Princesa do Lodo” (Orfeu Negro, 2026) não se constrói apenas através de uma belíssima narrativa: a ilustração amplia o poder das palavras. Mais uma vez, Beatrice Alemagna surpreende-nos quer pela narrativa quer pelas belíssimas ilustrações, criando um universo visual que parece nascer das profundidades, do lodo, de um mundo orgânico, irregular, misterioso e por vezes desconfortável, mas também extraordinariamente expressivo.
O título deste poderoso álbum é um excelente ponto de partida para o diálogo. Princesa do Lodo? Corresponderá esta princesa à ideia convencional que temos de uma princesa? De uma jovem delicada e luminosa? Parece que não! A Princesa do Lodo é feita de matéria bruta, lama e ramos; pertence àquele lugar subterrâneo, simultaneamente estranho, inquietante e fascinante. A escolha da autora é particularmente feliz, porque subverte as expectativas associadas à palavra «princesa». O que é aparentemente feio, estranho ou assustador poderá também ser acolhedor e necessário? Afinal, onde reside a beleza? Apenas naquilo que é perfeito e harmonioso?

Mas que princesa será esta? Para o sabermos, teremos de começar por apresentar a pequena Yuki: “Tenho mau feitio. Sou má e malcriada. Quando me zango, ponho-me aos gritos. Choro e dou murros no chão. Fico toda emaranhada cá dentro. Como os fios eléctricos destas ruas”. Yuki e o irmão regressam a casa quando as chaves da jovem caem por um esgoto que tem a tampa sempre aberta. Yuki desce então às profundezas, na tentativa de recuperar as chaves de casa. “Lá em baixo tudo está escuro. (…) Desço, desço, desço. Tenho medo, mas continuo. Degrau após degrau, chego a um lugar desconhecido”. É nesse mundo subterrâneo que a aventura começa quando Sua Alteza, a Princesa do Lodo, se aproxima e se apresenta.
O mundo subterrâneo criado por Beatrice Alemagna poderá ser lido como uma viagem à geografia dos sentimentos: solidão, culpa, raiva, indiferença e tristeza. Emoções que todos conhecemos, que fazem parte da experiência humana, mas que muitas vezes as crianças ainda não sabem nomear, compreender ou partilhar – apenas sentem. A relação entre Yuki e o irmão proporciona uma outra leitura. Talvez esta não seja apenas uma viagem individual, existindo a possibilidade de sermos acompanhados quando atravessamos lugares mais difíceis. A presença do outro poderá ser decisiva para que o medo se transforme em coragem, para que a tristeza e a angústia sejam trespassadas, para deixarmos de lutar contra aquilo que somos e sentimos.

A representação do espaço subterrâneo não é apenas um cenário, mas essencialmente uma extensão dos sentimentos de Yuki. Florestas, labirintos e lagos tornam visível aquilo que não é fácil representar. A ilustração permite que o leitor observe o medo, a confusão, a solidão ou a tristeza, sem que seja necessário nomeá-los constantemente. As maravilhosas ilustrações permitem-nos entrar num mundo menos previsível, menos organizado, onde as formas poderão ser estranhas e onde o olhar necessita de tempo para descobrir o que está escondido.
Beatrice Alemagna constrói, assim, um livro simultaneamente estranho e terno, sombrio e luminoso, em que o lodo deixa de ser apenas aquilo que suja para se transformar na matéria de que também são feitos os nossos sentimentos. Um livro maravilhoso, sensível, inteligente e belíssimo.











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