Coube a Patrick Watson a abertura do último dia do Vodafone Paredes de Coura 2026. Ao contrário dos seus outros concertos, que incluíam banda, o canadense teve a tarefa de maravilhar Coura apenas com a sua voz e múltiplos pianos e sintetizadores. Algo que não o impediu de encher o anfiteatro e pô-lo a chorar.
Entre os temas, Watson contou algumas das histórias que inspiraram as suas músicas. “Big Bird In A Small Cage”, por exemplo, surgiu porque um amigo o levou a uma casa de músicos jazz, onde todos tocavam como Coltrane. Lá dentro, reparou que tinham posto um pássaro enorme numa jaula pequena, algo muito cruel mas que acabou por resultar num óptimo nome para uma música.

Noutro momento, relatou o quão difícil foi mudar-se da sua pequena cidade para Montreal, lugar onde não tinha amigos. Um dia, quando foi cortar o cabelo, deram-lhe cogumelos, e a partir de então nunca mais foi a outro lado para um novo penteado. Numa fase em que passou por um mau bocado, confessou ao cabeleireiro que a sua vida estava um desastre, que lhe respondeu que dentro de 4 anos a sua vida iria ficar melhor. Não poderia, porém, forçar a melhoria, mas esperar e deixar que esses tempos mais felizes viessem.

Houve ainda uma interacção com o público quando chegou uma música que requeria o som de pássaros, som normalmente providenciado por um apito que o baterista usava. Agora sozinho, pediu à plateia para assobiar, transformando os festivaleiros num coro de passarinhos. A última música acabou por ser “The Great Escape”, do seu álbum “Close to Paradise”, que o público votou deixando de fora “Lighthouse”. A solo ou acompanhado, Patrick Watson consegue comover uma plateia da mesma maneira.

Após ter sido o acto de abertura de Lorde, Sophia Stel veio ao Paredes de Coura mostrar-nos o seu pop alternativo. Uma actuação que não incluiu músicos, e na qual Sophia surgiu vestida de forma bastante simples, como se tivesse vindo actuar sem saber que tal iria acontecer. Vários dos arranjos pareceram ganhar mais vida ao vivo, especialmente os temas mais calmos de “How To Win At Solitaire”, disco lançado este ano. Desceu à grade para dançar um pouco com o público de Coura, e ainda cantou uma música nova, mas foi sem dúvida um concerto pouco memorável.

Na tarde deste último dia do festival, os festivaleiros tiveram a oportunidade de presenciar um concerto surpresa dos Meute, que apareceram junto ao rio numa formação mais reduzida, no que acabou por ser um dos melhores momentos do festival. Muito chapinharam os banhistas, e até houve tempo para umas tentativas de crowd surfing, mosh e uma cantoria improvisada de “Billie Jean”, de Michael Jackson. Mas este foi apenas um cheirinho do que seria o seu concerto no palco principal, que contou com a formação completa e transformou o anfiteatro numa pista de dança, alimentada de forma pouco convencional por instrumentos mais dados à música clássica. Os festivaleiros tiraram os pés do chão e deixaram-se comandar pela banda, numa celebração que deixou o festival a gritar por mais.

Após a festa dos Meute, coube a Thundercat a difícil missão de continuar a festa. Porém, a sua música repleta de jazz e r&b resultou num concerto pouco emocionante, onde mandou agradecimentos a gente como Kevin Parker (Tame Impala) ou Steve Lacy, colaboradores de canções suas. Um concerto morno que o público aproveitou para descansar, preparando-se para a tempestade que viria a seguir.

Se querem falar de presença de palco, Amy Taylor tem de ser trazida à conversa. Amyl and the Sniffers tiveram a tarefa difícil de encerrar o palco principal do festival, mas isso esteve longe de ser um problema para estes australianos. A banda entrou em palco ao som de “Satisfaction”, dos Rolling Stones, e após isso não parou um segundo.

O punk preencheu cada frincha do anfiteatro, que se tornou numa mistura de mosh e crowd surfing, que chegou a começar na colina. Como sempre, Amy fez especial menção às mulheres da plateia, e ainda arranjou tempo para ofender o presidente dos Estados Unidos. Os temas viajaram do primeiro e homónimo álbum ao mais recente “Cartoon Darkness”, num concerto enérgico que encerrou da melhor maneira possível o festival.
Após mais uma edição brilhante, o regresso ao Couraíso fica marcado para os dias 18, 19, 20 e 21 de Agosto de 2027. Até para o ano!
—
Fotos: Hugo Lima











Sem Comentários