“A Hora do Lobo” (Dom Quixote, 2026) é mais um livro de Jo Nesbo fora da imperdível série Harry Hole e, muito provavelmente, o seu policial de cariz internacionalmente mais político, olhando de frente para a sociedade e a realidade norte-americanas – seja pelas referências múltiplas ao assassinato de George Floyd, a crítica ao fácil acesso a armas ou pelo facto de, a dado momento, se falar de Trump como “um louco inelegível”, algo que infelizmente não se verificou (a parte do inelegível, claro).
O livro passa-se, como é hábito em muito bom policial, em duas linhas temporais, ambas tendo como pano de fundo a cidade de Minneapolis: em 2016, um pequeno criminoso e negociante de armas é alvejado por um atirador solitário, que desaparece sem deixar rasto. A investigação é deixada ao cuidado de Bob Oz, um detective problemático com alguma aversão ao protocolo – tem umas certas parecenças com Harry Hole -, que cedo descobre ter algumas semelhanças com o próprio assassino; em 2022, onde acompanhamos um norueguês que se apresenta como escritor de livros policiais, de viagem aos Estados Unidos com a missão de descobrir o que esteve por trás do assassinato de 2016 – e escrever um livro sobre isso.
Jo Nesbo oferece ao leitor algumas reviravoltas inesperadas, um alimentar da narrativa em lume brando e calafrios com várias temperaturas abaixo de zero, abordando questões actuais como o descontrolo das armas, a corrupção policial ou os traumas modernos americanos. Pelo caminho, para além de uma distinção pertinente entre moralidade – como queremos que o mundo funcione – e economia – o modo como ele realmente funciona -, deixa-nos um augúrio funesto: “um dia, a arma que fizermos será apontada à nossa cabeça”. Não é nenhum Harry Hole mas, ainda assim, mostra-nos um Jo Nesbo em boa forma.











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