“Chamavam «pirilampos» às pessoas que foram deslocadas devido à explosão na central nuclear de Chernobil. Não muito tempo depois, começaram a utilizar esta palavra para se referirem também àqueles que viviam nos locais próximos, afetados pela radiação espalhada pelos ventos e pelas chuvas.”
Em Abril de 1986, a radiação libertada em Chernobil propaga-se ao longo de milhares de quilómetros, contaminando o ar, a água e os alimentos. Nos territórios soviéticos, as autoridades lidam mal com a catástrofe e a informação fidedigna escasseia, com prejuízo adicional para a segurança da população – parte da qual ver-se-á mais tarde confrontada com deslocações forçadas, que destruirão comunidades e formas de vida. É neste contexto que Natalia Litvinova nasce, na Bielorrússia, poucos meses após a explosão, tendo a mãe quase morrido por falta de cuidados após a cesariana. “Não queria nascer no outono num país radioativo” é a frase de abertura deste seu primeiro romance. Todavia, essa realidade marcará a primeira parte da sua vida e terá consequências a longo prazo.
“Pirilampo” (Dom Quixote, 2026), luminoso vencedor do Prémio Lumen de Romance 2024, é o relato, na primeira pessoa, de processos cruzados de crescimento e questionamento da história familiar, os quais acompanhamos em capítulos curtos, numa prosa digna de uma poeta.
A primeira parte do livro é dedicada à infância na Bielorrússia, com os pais e um irmão que assume pouquíssima importância na narrativa. A desagregação da URSS e o colapso económico são incontornáveis, mas a variável mais marcante é a ameaça da radiação, que atinge a psique colectiva e se infiltra na imaginação, nos sonhos e pesadelos da autora: uma presença invisível que as crianças sabem que pode acumular-se nos seus corpos, mas que não compreendem, e à qual reagem integrando-a nas brincadeiras.
A secção termina com a sugestão da partida da família para a Argentina, mas a migração fica em suspenso até à terceira parte. A segunda assume um pendor onírico, que a aproxima dos contos populares eslavos, quando a autora entabula um diálogo com uma avó já falecida, outrora sequestrada pelos nazis para fazer trabalhos forçados e que, após a libertação, foi condenada a mais trabalhos forçados pelo seu próprio país. Os pensamentos densos, comparados a uma âncora num pântano, são reconhecidos como uma herança familiar, e a escrita – mais concretamente, a intenção de produzir um testemunho sob a forma de romance – é apresentada precisamente como uma forma de luta contra esse peso.
Na última parte, encontramos a narradora já adulta, de regresso à casa da mãe após o fim de uma relação amorosa. O cenário, agora, é a Argentina, para onde a família partiu iludida, sem conhecer a língua local, nem aquilo que os esperava. Aí, são alvo de estranheza e troça gerais – e da burla de uma família russa que lhes leva as poupanças. Para a autora, em concreto, as diferenças no sistema educativo contribuem muito para a dificuldade de adaptação, e o afastamento entre os pais não apazigua a situação.
No entanto, não estamos perante uma obra triste: “Ao escrever, tento conciliar o importante com o que não o é, o concreto e o universal, a tragédia e a felicidade, o passado e o presente, a dor e a ternura”, declara Litvinova. O texto, tal como os vestidos que a mãe costurava, une camadas de fios em costuras suaves – no seu caso, os fios são memórias, e o resultado é a reconciliação do passado com o presente.











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