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“As Mulheres ao Longo da História” | Katarzyna Radziwiłł e Joanna Czaplewska

Por Julia Martins · Em 13/08/2026

Os livros informativos para os mais jovens têm vindo, cada vez mais, a afastar-se das enciclopédias tradicionais. Hoje em dia, assumem-se como livros onde se articula o rigor histórico e/ou científico, a qualidade gráfica, o equilíbrio entre informação e contemplação visual e uma clara consciência dos debates contemporâneos sobre memória, representação e diversidade. “As Mulheres ao Longo da História” (Fábula, 2026) é um livro extraordinário, que propõe uma revisão crítica da própria narrativa da História e não apenas uma mera divulgação de factos históricos.

O ponto de partida é conhecido, mas continua a ser necessário afirmá-lo: durante séculos, a historiografia privilegiou um olhar predominantemente masculino, relegando para segundo plano o papel desempenhado pelas mulheres na construção das sociedades. Ao percorrer diferentes épocas históricas, o livro de Katarzyna Radziwiłł evidencia que as mulheres sempre estiveram presentes nos acontecimentos fundamentais da humanidade, ainda que muitas vezes permanecessem invisíveis nos discursos oficiais.

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Começamos em 10 000 a.C., numa época onde muito pouco se sabe sobre estes tempos remotos, e viajamos até ao século XXI. Nesta janela temporal, não é apresentada ao leitor apenas uma perspectiva de celebração de grandes heroínas. Rainhas, cientistas, artistas, guerreiras ou activistas convivem com mulheres anónimas, cujos trabalhos, cuidados e formas de participação social revelam que a História é, igualmente, feita de experiências quotidianas.

Ao longo da leitura é visível uma preocupação constante em contextualizar as diferentes condições sociais, políticas e culturais em que viveram as mulheres de cada época, permitindo compreender que as desigualdades assumiram formas distintas ao longo do tempo. São abordadas questões como a igualdade, as lutas contra a desigualdade, a cidadania, os direitos humanos, o direito ao voto e outros direitos da Mulheres, a forma como as mulheres se vestiram e se vestem ou as invenções que contribuíram para mudar a vida das mulheres, entre muitos outros aspectos da representação feminina ao longo da História. Mais do que acumular dados e informações, ao longo do livro são estabelecidos diálogos e articulações entre contextos históricos, transformações sociais e a evolução dos direitos das mulheres.

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Cada dupla página organiza-se como uma composição visual densa, quase panorâmica, onde múltiplas cenas coexistem em simultâneo. Esta opção aproxima o álbum da tradição dos grandes livros ilustrados de divulgação histórica, mas introduz uma sensibilidade contemporânea na organização gráfica, tornando a leitura também exploratória exploratória. O olhar desloca-se entre personagens, objectos, gestos e pequenos episódios secundários, que ampliam continuamente a informação fornecida pelo texto. É curiosa e interessante a atenção concedida à vida do quotidiano. Ferramentas, vestuário, espaços domésticos, oficinas, locais de trabalho, momentos de lazer, tradições ou ambientes urbanos surgem cuidadosamente representados, permitindo que o leitor compreenda a multiplicidade de experiências femininas. A História deixa de ser apenas uma sucessão de acontecimentos políticos, para se tornar também uma história social, que abraça formas de viver, trabalhar, criar e resistir.

A paleta cromática, apresentada por Joanna Czaplewska, desempenha uma função narrativa. As cores suaves, expressivas, ajudam a distinguir épocas, ambientes e geografias. As personagens surgem integradas em comunidades e contextos sociais, recusando a lógica do retrato heróico que tantas vezes domina a representação da História.

Mais do que livro informativo, “As Mulheres ao Longo da História” é um exercício de revisão crítica da memória colectiva, onde as mulheres não podem ser excluídas.

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Julia Martins

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