Há uma felicidade evidente em estar no palco, patente durante toda a prestação. Oscilando entre ambientes, mas com uma entrega inquestionável, o quarteto Bom Flamme ofereceu no Jazz em Agosto uma noite onde a intensidade e a contemplação traçaram armas em conjunto.
Logo no início, Valentin Ceccaldi apresentou os seus cúmplices. O violoncelista (irmão do violinista Théo que, em 2019, trazia o agrupamento Freaks a este festival) avançou para este projecto na sequência de uma viagem ao México, juntando-se ao português Luís Lopes (que bem conhecemos de vários títulos na Clean Feed e do seu trabalho continuado com Rodrigo Amado), a Fulco Ottervanger (holandês, que se ocupou do piano, entoou passagens com a voz e, acima de tudo, conduziu um sintetizador, bastas vezes metamorfoseado em órgão, com uma intensidade assinável) e a Étienne Ziemniak (arrasador baterista francês).

O concerto abriu com “Calavera dos”, um dos temas do segundo álbum, “Calaveras Y Boom Boom Chupitos”. Um padrão rítmico constante e repetitivo, em ascensão, até que os músicos se libertam em concertada explosão. Começamos a intuir o psicadelismo que rondará o encontro, e algumas memórias sonoras podem ser convocadas par melhor compreensão – se a veia latina está bem patente, Marc Ribot ou os Cassiber também são coordenadas que não distam demasiado desta geografia sonora.
O tema seguinte insinua-se de modo planante, aquático, volátil (nem parecem os mesmos músicos que, minutos antes, fariam inveja a uma banda de Hard Rock dos anos 70), coordenando harmónicas entre si. Ziemniak vai fazer o “gosto ao dedo”, literalmente, cruzando o palco e assentando arraiais por alguns minutos ao piano. Vincent percute as cordas do seu instrumento com uma pequena baqueta de cabeça embolada. Mais uma vez, o ritmo acentua-se, o baterista regressa ao seu posto natural e podemos comprovar como a sucessão de elementos repetitivos, que acentuou o carácter quase hipnótico da sequência anterior, dá agora lugar a uma bateria implacável, com a cumplicidade dos cordofones.
Ottervanger percorre o teclado do sintetizador, como já se disse mimetizado em órgão, trazendo à memória a loucura de um Keith Emerson (sem facas!), numa cavalgada extenuante que nos conduz à apoteose.

A música destes quatro homens resulta numa mescla de momentos mais recatados, imbuídos de uma quase espiritualidade, com libertações puras de energia, mantendo a veia da improvisação sempre ao rubro, sempre latejante.
Ao terceiro tema regressa a sonoridade herdada da tal viagem iniciática, com a guitarra de Luís Lopes e a cadência dominante a evocar (ainda que longinquamente) as aventuras Rock de Carlos Santana. Lopes explora a guitarra, mantendo uma atitude de rocker em palco, com a exuberância que bem lhe conhecemos e a mestria que faz questão de demonstrar. As micro-frases que dedilha, cruzando-se com a percussão associada à bateria, que Ziemniak instalou num dos pratos (algo entre uma pandeireta e um pequeno tambor), resultam em pleno, definindo a paisagem que serve de base a esse momento.
Ao quarto tema, Vincent convida os presentes à dança. Afinal, a composição seguinte – “Ragtime Dance” – será um tema do histórico Scott Joplin. Rapidamente entendemos que a matriz será antiga; contudo, a sonoridade bem actual, com notória distorção a marcar presença e a desconstrução colectiva. assegura que um clássico surja irreconhecível. Até que… primeiro escuta-se um teclado semelhante a um jogo de computador, para dar lugar a uma revivalista pianola saltando pelos ares, até ser chamejada pelo duelo entre violoncelo e bateria. Entretanto, Lopes parece debater-se com problemas na sua pedaleira, mas the sow must go on… os restantes três membros asseguram que a remissão se mantenha no ar.

Problemas técnicos resolvidos, apresenta-se o próximo tema, “Tres Calaveras”. O violoncelo dedilhado cria o cenário onde assenta a voz gutural de Ottervanger. As rãs do jardim, habituadas a interagir com os diferentes músicos que por ali passam, articulam-se naturalmente com o piano, e a encenação espontânea vai ao ponto de ser no momento de suspensão que passa um avião. O ritmo galga, fervor colectivos apoderam-se do palco, conjugam-se as prestações rumo ao final, numa cadência bem controlada.
Para o encore, começamos com uma marcação cerrada, novamente o organista endemoniado cativa tudo e todos, gerando um free-punk devastador. Uns harpejos de guitarra anunciam a calmaria, e uma batida lenta e bem marcada, monocórdica, acentua o carácter ritualístico da prestação, qual duelo tenso em desenlace de Faroeste. A todo o momento poderia surgir um qualquer Peter Murphy, – «Oh classic gentlemen/ Say your prayers/. To the wind of prostitution/ To your faces/ and Rex complexes» – perante os nossos olhares, adocicados por um bonbon em chamas.
Fotos: Petra Cvelbar – Gulbenkian Música











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