Um jardim repleto numa noite de Verão, perante uma “big band” devidamente apetrechada de saxofones, trompetes e trombones, é uma descrição que poderia remeter para outra época, até para outra geografia. Mas não. OS LUME (Lisbon Underground Music Ensemble) estão a assinalar duas décadas de existência, e a música que praticam é assumidamente dos nossos dias… apesar de heranças várias.
O concerto do Jazz em Agosto começou com o som dos próprios animais locais, a fauna que habita os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, denunciando o gosto de Marco Barroso (compositor e condutor do colectivo) pela utilização de curtas gravações (incluindo interferências eléctricas ou vozes cinematográficas) como interlúdios ambientais. A orquestra arrancou de forma densa e intrincada, cabendo o primeiro momento de destaque ao trompetista Gileno Santana, luso-brasileiro que se tem evidenciado nas novas gerações de músicos de Jazz, até pelas palestras proferidas em diferentes países (é também professor de trompete jazz no Conservatório de Música do Porto).
Para “começo de conversa”, dois temas inéditos, confessando a coerência do álbum ainda na calha, relativamente aos três existentes. Aliás, todo o concerto foi coerente na linha musical que ostentou, prosseguindo a postura que tem sido o cartão de visita deste agrupamento (actualmente, dezena e meia de elementos, sem contar com a técnica de som, Suse Ribeiro), uma sonoridade contemporânea, solidamente alicerçada na noção de prestação colectiva, incluindo diversas nuances devedoras do cânone orquestral da primeira metade do séc XX. Logo no segundo tema, com a flauta de Manuel Luís Cochofel e o clarinete de Paulo Gaspar a sobrevoarem a construção geral, são os ecos de Philip Glass que poderiam ser evocados. Rúben da Luz sola de forma segura, sem excessos, intervenção (justamente) aplaudida pela audiência. O tom vai subindo, em crescendo, sem dispersão, consolidando a vertente herdeira da Sétima Arte que várias vezes espeita desta sonoridade.

A música que vai percorrendo a noite tem antecessores, embora distintos. Mike Westbrook, Vienna Art Orchestra, Flat Earth Society, até mesmo algum Gil Evans, mas também as lições do Minimalismo ou a inovação estética de Butch Morris, todos contribuíram para a consolidação das raízes que sustentam esta árvore de vários ramos, erguidos entre tempos e estilos. Marco Barroso, que se mostrou bastante simpático para com o público e a organização, dirigindo-se-lhes várias vezes, aproveitou uma pausa para dedicar o concerto a um músico muito recentemente falecido, que integrou o projecto durante anos, o baterista Vicky Marques. Os sopros entrelaçados estabelecem gamas metálicas, ora sobressaindo as palhetas (e dando a João Pedro Silva a oportunidade de fazer brilhar o seu sax soprano com sabedoria), ora potenciando palco aos trombones (onde juntam a Rúben, Eduardo Lála e Mário Vicente).
Numa outra intervenção de Barroso, este anuncia dois temas que «captam uma certa dimensão onírica… e nos sonhos acontecem coisas estranhas», sendo um deles “AM Phantasies”, do álbum Las Californias. um Swing desconstruído que serviu na perfeição para Paulo Gaspar voltar a sobressair e Marco Barroso se mostrar também exímio pianista.
O tema seguinte assenta numa herança algo bluesy, sugerindo bares e copos, alguém pendurado num balcão… mas com elegância. A narrativa encontra no trombone de Eduardo Lála uma óptima válvula de escape, enquanto a orquestra se aventura por um quase charleston, com roupagem contemporânea. Mesmo a terminar, uma voz (gravada) de menina coquete deixa escapar: «I forgot what I was gonna say!».

O tema que dá título ao disco “Las Californias” revela-se magistral, explanando toda a exuberância e coordenação aqui em jogo, dando espaço para Tomás Marques elevar o seu sax alto num excelente solo (já antes Gonçalo Prazeres exibira o som do seu tenor, ficando apenas Joana Sá, que se ocupou do sax barítono, sem o seu momento de distinção). Para ficarem todos apresentados, resta referir os outros dois trompetes, (Alexandra Caeiro e João Silva), o baixo eléctrico de Ricardo Marques, e a bateria competente de João Sousa.
Novas palavras de Marco Barroso, aproveitando a confusão que, por vezes, suscitam alguns aparentes finais, que não o são, para anunciar: «é o fim… mas não é o fim do concerto… nem é o fim do mundo, não se preocupem…», reforçando o bom humor demonstrado. E que, aliás, está bem patente na estrutura das suas composições.
O concerto encerra com um tema do primeiro disco, homónimo, cuja primeira edição data de 2010 (pela portuguesa Clean Feed, reeditado três anos depois pela chancela belga Buzz). E a sua designação não podia ser mais adequada para ilustrar a transfiguração musical que sustenta o conceito dos LUME, homenageando sem estardalhaço, citando sem evidência, evoluindo sem desrespeito, em suma, inerindo a sua própria presença como mais um elo na longa corrente a que o Jazz nos foi habituando ao longo dos tempos e com a qual prendeu gerações e sensibilidades tão distintas. “Free Style Boogie” apresenta-se com um balanço invejável, espraiando-se por um ritmo ondulado e alegre, dançante, uma estrutura circular que não renega os antigos salões onde outros agrupamentos de configuração similar, ou outros jardins em noites de semelhante Verão, fizeram as delícias de outras audiências. Mas, desta vez, foi aqui.
Fotos: Petra Cvelbar – Gulbenkian Música











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