Pé ante pé, num tímido anonimato que parece preferir o recato da sombra à exposição solar, Catarina Branco tem vindo a construir uma discografia singular na música independente nacional, arrancando as raízes da música tradicional portuguesa e transplantando-as para um vaso com terra regada a synthpop e alimentada, com mimo de sobra, a vitaminas indie.
Após a edição do EP “Tá Sol” (2019) e do álbum “Vida Plena” (2022), a cantora e compositora de São Martinho do Porto está de regresso com “Acordava Cansada”, um disco conceptual e muito introspectivo sobre a invisibilidade e o cansaço emocional, afastando-se do registo anterior que olhava, com ironia de sobra, para um quotidiano onde se jogava um solitário sudoku, se falava de trivialidades com um papagaio robot ou se explorava, na companhia de um cintalho, a arte do amor.
Em termos sonoros, a transformação é também significativa. Os arranjos leves – e por vezes minimalistas – de “Vida Plena” dão agora lugar a orquestrações trabalhadas com a perícia de um ourives. O piano continua a ser o centro do mundo de Catarina Branco, mas há também uma bateria discreta, um contrabaixo com jogo de anca e sopros que chegam, quase sempre, para convidar a planar. O mérito vai todo para Catarina Branco, que assume a produção e toca a maioria dos instrumentos deste “Acordava Cansada”, um disco de pura afirmação.
Em todos os temas, olha-se ao espelho e ensaia-se um passo à frente, mesmo que por vezes a resolução fique confinada ao mundo do pensamento. Em “A lista”, o tema de abertura, fazem-se listas para fintar uma cara trancada e o hábito firme de se chegar atrasado, tudo para tirar algo da cabeça; “Acordava cansada” é um auto-retrato feito em espiral, numa canção que começa na solidão de uma flauta e rebenta depois com a partitura; “Eu tou bem” dá um salto à pista para “uma dança, um beijo na morte”, relembrando que uma relação é sempre desigual e que, no fim, talvez o melhor que se consiga é estar ok; “Onde eu me escondo” apresenta-nos a um fantasma preso num corpo estranho, contando as intermináveis horas com que se cose a sua solidão. Há coros, uma sirene que parece um lamento e teclados que procuram dentes de leite debaixo das almofadas; “Magia” solta trompetes em si bemol, num retrato de um afastamento da beleza, da magia, do encanto e do fascínio; “Beijo no escuro” traz-nos a antecipação e o medo de um beijo, numa balada lenta que, a dada altura, nos convida para, qual Alice, arriscarmos o mergulho na toca do coelho; “Olhos nos olhos” vê a guitarra portuguesa a abrir caminho, indo atrás “do que me prende, do que me agarra mais”. Nega-se a culpa e relembra-se o que já se foi, numa canção que tanto serve de recomeço como de ponto final – “Tu foste, já foste”; o remate final dá-se com “O mundo não vai morrer comigo”, aceitando-se o papel de refém do passado, o destino que aí vem ou a pré-condenação à sorte e ao azar, tudo enquanto se vislumbra, lá ao fundo, “o princípio do fim do mundo”. Um fim do mundo que, quem sabe, talvez seja o princípio de um big bang interior. O cansaço de Catarina Branco valeu-nos um grande disco.











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