“Como é que um Caracol Foge de Casa?” (Nuvem de Letras, 2025) é um livro muito actual, delicado e bem-humorado, que nos conta a história de um caracol “descontente com a sua rotina e que já não tinha a energia de outros tempos. A carapaça foi ficando pesada, o cansaço agigantara-se e já só conseguia ver desvantagens em ter a casa às costas”.
Ao longo da viagem, surgem outros animais preocupados em construir, proteger ou encontrar abrigo, sejam as minhocas, as borboletas – “que, tendo asas, chegavam sempre primeiro às folhagens mais apetitosas” -, as andorinhas – que passavam o dia num “ir e vir frenético, com vários rodopios, para trazer no bico umas palhinhas delgadas que depois colava a custo, para construir um ninho arredondado” -, a toupeira – que deseja uma toca maior -, o esquilo – que não encontra uma árvore disponível -, a aranha – que não pode parar nem um minuto, ou fica sem dormir -, as abelhas – que trabalham em “contrarrelógio para acabar a colmeia” – ou outros animais que se vão cruzando com o caracol.

Todos os animais vão falando das suas casas, levando os jovens leitores a questionar-se: afinal, o que é uma casa? Um espaço físico ou um lugar de conforto, protecção, memória e afecto? A casa faz parte de nós. É o sítio de acolhimento e segurança onde construímos memórias e afectos, onde cuidamos e somos cuidados, onde somos livres de ser quem somos.
As casas podem ser grandes ou pequenas, modestas ou opulentas, silenciosas ou ruidosas, bem recheadas ou minimalistas, mas a nossa casa é sempre a melhor. Ter uma casa é uma necessidade fundamental, um direito essencial à dignidade humana, à individualidade, pois cada um de nós precisa de um lugar onde possa sentir pertença, tranquilidade e esperança.
O texto metafórico transporta-nos para a actualidade, conseguindo partilhar com os jovens leitores um tema complexo como é o da crise da habitação. Capicua oferece-nos uma narrativa sensível, que convida ao diálogo, ao questionamento e à reflexão.

As ilustrações de Matilde Horta ampliam a poética das palavras e o humor. A abundância da cor, o movimento, os pequenos detalhes e a expressividade das personagens permitem trespassar a narrativa, abraçando cada personagem enquanto se destaca a importância de ter uma casa, algo que poderá conduzir a outras questões relevantes como a identidade, a pertença, a amizade ou o direito a ter um lar, para além de outras questões sociais.
As guardas iniciais e finais marcam o ritmo da narrativa. No entanto, ainda a propósito das ilustrações, convidamos os leitores [com o mediador, pais, educadores] a explorar a poderosa capa do livro. Exploremos o caracol, as cores e o título: Quem será este caracol? Para onde poderá ir? Por que motivo quererá fugir de casa? O que significa “ter a casa às costas”? Será possível fugir de casa quando a levamos connosco? O que significa, para cada um de nós, sentir que estamos “em casa”? Um livro perguntador, que convida ao diálogo. Um livro para ter por perto, para ler e dar a ler.











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