A Devir continua a sua missão de promover a obra de Junji Ito, um dos mais celebrados mestres japoneses do universo do terror. O mais recente capítulo dá pelo nome de “As Angústias Amorosas dos Mortos” (Devir, 2026), um conjunto de dez histórias que são, na verdade, dois andamentos.
O primeiro andamento, composto por seis histórias que ocupam cerca de metade do livro, tem como protagonista Ryusuke, um jovem que regressa à “cidade de neblina intensa” onde já antes tinha vivido, deparando-se com rumores sobre suicídios de pessoas após lhes ser lida a sorte. Estas leituras, conhecidas como “leituras na encruzilhada”, são “uma espécie de previsão que se fazia antigamente. A pessoa fica num cruzamento e pede à primeira pessoa que passa para prever se terá sorte ou azar. É um costume japonês antigo e raro, que já não se vê nas outras cidades. Parece que esta prática está na moda outra vez, principalmente entre as crianças”.

O regresso de Ryusuke fá-lo confrontar-se com um acontecimento decorrido dez anos atrás, onde lhe foi pedida uma destas leituras. Aparentemente, a resposta transviada de Ryusuke terá conduzido ao suicídio da tia da rapariga por quem se está agora a apaixonar, mas de quem se decide afastar movido pela culpa.
O responsável pela onda de suicídios é conhecido pelo “rapaz bonito da encruzilhada”, alguém a quem Ryusuke irá dar caça, uma missão que lhe irá sugar todas as energias, começando a ser conhecido como “morto-vivo” e a sofrer de bullying na escola. A dado momento, surge mesmo o rumor de que este rapaz bonito será, na verdade, o próprio Ryusuke. Um história habitada por fantasmas, sessões espíritas e muita neblina, que nos fala sobre indecisões humanas, falta de confiança, necessidade de validação e baixa auto-estima.

O segundo andamento oferece-nos quatro histórias mais curtas, mas nem por isso menos insólitas: uma família que está para lá do disfuncional; um jovem que sente dor “em sítios impossíveis”, conferindo um novo significado à dor fantasma; um instrumento musical feito de costelas humanas; e um coração demasiado real, que desaparece por magia.
Se gostam de livros habitados pela estranheza, o sobressalto e um terror quase sempre capaz de provocar pele de galinha – ou de levar à toma de um kompensan -, Junji Ito é uma boa aposta.











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