Na planície semiárida do Chaco, na Argentina, a seca e a chuva sucedem-se como castigos, fustigando vidas tão desoladas quanto a paisagem. É nesse cenário que se reúnem quatro personagens, distribuídas por duas famílias fragmentadas, entre as quais a narração vai alternando o foco: de um lado, um mecânico e o seu jovem assistente; do outro, um pastor evangélico que percorre o país a apregoar a palavra divina, num carro tão cheio de caixas com bíblias e revistas religiosas que mal sobra espaço para a filha. Todos vivem à margem da sociedade, aparentemente serenos, mas ocultando, cada um, as suas próprias mágoas.
Uma avaria no carro do pastor leva-o à oficina do mecânico, junto a um monte de sucata. Como o sol abrasa e a reparação será demorada, o mecânico oferece abrigo aos viajantes, e terá de prolongá-lo mais do que gostaria quando chega a tempestade – literal e metafórica. “O Vento que Arrasa” (Dom Quixote, 2026) e que dá título ao livro, tanto pode referir-se à inspiração divida, pela qual o pregador se diz animado, como pela força da natureza, que umas vezes agrega e outras separa. Trata-se de um romance curto, cuja acção começa perto do meio-dia e termina na manhã seguinte, e que se lê num instante, prendendo-nos pela imprevisibilidade do desenlace. Publicado em 2012 na Argentina e eleito o melhor livro do ano pelo público, este primeiro romance de Selva Almada valeu-lhe o First Book Award no Festival Internacional do Livro de Edimburgo em 2019, tendo a autora recebido, desde então, outras distinções.
Apesar da escrita enganadoramente simples, a autora mostra-se hábil a criar pequenos mistérios e a introduzir recordações que revelam as fragilidades das personagens, ajudando a compreendê-las. Enquanto os adultos tentam evitar que os respectivos passados contaminem o presente, os jovens lidam com carências por preencher: a rapariga com o desenraizamento de quem não tem memória de um lar fixo, o rapaz com a sede de algo que nunca soube exprimir até encontrar o pastor, ambos com a dor da perda das respectivas mães – mulheres que estão notoriamente ausentes, por terem morrido, ou partido para lugar incerto na Terra, ou sido abandonadas. Quando as duas visões do mundo representadas pelos adultos se confrontam, só um dos jovens concretizará o seu desejo de partir, pois o sentido em que o vento sopra não pode satisfazer todos os interesses. Depois da tempestade volta a canícula, e a vastidão do espaço, tão associada à liberdade, contrasta com a asfixia do calor e dos laços que prendem os seres humanos.











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