“Maridos e Amantes” (Penguin, 2026) tem por base uma estrutura que se tem vindo a tornar habitual: duas linhas temporais paralelas, unidas por um objecto misterioso – neste caso, uma pulseira em forma de cobra egípcia – e por laços de sangue que a protagonista contemporânea ainda não conhece. Mallory Dunne, mãe solteira na Nova Inglaterra de 2022, vê-se forçada a enfrentar dois segredos devastadores do seu passado quando o seu filho de dez anos, Sam, é hospitalizado em estado crítico após ingerir um cogumelo tóxico. Do outro lado do “espelho” temporal, no Cairo de 1951, Hannah Ainsworth, uma refugiada húngara casada com um diplomata britânico, deixa-se arrastar para uma paixão proibida com o enigmático gestor de um hotel, numa cidade à beira da revolução.
Beatriz Williams trabalha em múltiplas linhas temporais, com o elo entre ambas as histórias e personagens a surgir gradualmente, através de um legado familiar marcado por segredos, deslocamentos e sacrifícios. A arquitectura temporal parece, de facto, ser uma das qualidades do romance, com o livro a mover-se entre décadas com uma elegância algo cinematográfica, sem cair na “esparrela” da mera mecânica de puzzle narrativo. Williams não só usa o passado como decoração estética e “justificação” para a história presente como lhe dá uma verdadeira vida. O Cairo pós-colonial, em particular, surge desenhado com sensualidade e demonstrativo da inquietação política vigente à época, dando a conhecer um cenário onde o glamour e a ruína coexistem.
Com esta obra, a autora oferece um romance histórico onde paixão, trauma, classe social e memória familiar convivem com a fluidez de um thriller sentimental. Embora, à primeira vista, pareça apenas uma mera história sobre amores interrompidos, “Maridos e Amantes” proporciona uma reflexão amarga sobre aquilo que herdamos – biologicamente, emocionalmente e moralmente – de gerações anteriores, que podemos nem ter conhecido.
O romance vive menos da intriga do que da atmosfera emocional, mas sem resvalar – pelo menos na maior parte do tempo – para o sentimentalismo fácil. A relação entre Mallory e Monk Adams, músico transformado em figura mítica da cultura popular, podia, por exemplo, cair facilmente no cliché do “amor destinado”, mas a autora evita-o ao insistir na ideia de que o amor raramente chega na altura certa. Há, assim, uma certa maturidade na forma como o romance observa o desgaste provocado pelas escolhas erradas, pelo medo e pela diferença de classe.
A forma como Beatriz Williams escreve sobre o desejo feminino é também digna de nota, com Hannah e Mallory a não serem descritas como heroínas idealizadas mas antes mulheres contraditórias, impulsivas e, por vezes, até egoístas, o que contribui para a complexidade emocional das protagonistas – embora se possa porventura considerar a postura de Mallory excessivamente errática ou frustrante, o que, afinal, pode mais não ser que uma representação das intrincadas vivências individuais, constantemente moldadas por escolhas e acções. É, também, essa imperfeição que impede o romance de se transformar numa fantasia romântica estilizada, mesmo que por vezes nem tudo apresente a mesma consistência, com a multiplicidade de linhas narrativas a poder provocar, ocasionalmente, desequilíbrios de ritmo, ou com a componente contemporânea a depender demasiado de revelações tardias e coincidências algo “melodramáticas”.
O romance acaba por fundir histórias familiares e ficção histórica, sem vergonha da emoção, onde Williams escreve não para desconstruir o amor mas para explorar as suas cicatrizes, algo que faz com uma prosa elegante, visual e de leitura fluída. O resultado final é um livro que se lê com prazer, mas que pode provocar um gosto agridoce: a história de Hannah Ainsworth no Cairo merecia bem um livro inteiro.











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