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Vodafone Paredes de Coura 2025: estes vampiros ainda sabem morder

Por Pedro Miguel Silva · Em 19/08/2025

Foi a 10 de Julho de 2008, no então Optimus Alive!, que os Vampire Weekend se estrearam em Portugal, mostrando que pertenciam a uma raça diferente de vampiros, capazes de aguentar com a implacabilidade da luz do sol das 18h50 e, muito provavelmente, com o alho da cozinha portuguesa. Dois anos depois, já em horário nocturno e após Julian Casablancas ter assinado o pior concerto da história do festival – proeza que repetiu anos mais tarde na companhia dos The Voidz -, os Vampire estiveram no Super Bock Super Rock do Meco, e já então eram uma das mais entusiasmantes bandas do universo indie rock/afro-pop/ska/hip-hop/pop dos anos 80 – e uma série de outros estilos. Com eles, havia quase sempre um piano cravo em modo DJ, destacando-se o papel de criadores de músicas intemporais alimentadas com letras que se liam como enigmas, a decifrar com alguma paciência, criatividade e espírito detectivesco. 17 anos depois da primeira vez em Portugal, a banda de Ezra Koenig, Chris Baio e Chris Tomson estreou-se finalmente no Vodafone Paredes de Coura, naquele que foi um dos momentos mais marcantes da edição deste ano do festival.

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No pré-arranque das festividades, um pano com dimensões de fazer inveja a muita claque de futebol erguia uma parede colossal, um fundo preto onde estava impresso, no lettering pouco atrevido das capas, o nome da banda. Foi nesse espaço reduzido entre o pano e o limite do palco, como num showcase numa loja de vinis em dia de Record Store Day, que o trio partiu para versões despidas mas cheias de verve de “Mansard Roof”, “Holiday” e “Ice Cream Piano”, esta última de “Only God Above Us” – um dos enormes discos de 2024.

“Como estamos? Somos os Vampire Weekend, os vampiros de fim-de-semana”, atira Ezra, arriscando o português enquanto o pano cai, mostrando um cenário que é tudo menos contenção, entre músicos, um ecrã gigante e pessoal técnico que se is revezando numa grande azáfama.

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“Classical” é um passeio por entre as colunas de um centro de arte moderna, um olhar sobre a intemporalidade da arte face ao declínio da espécie humana, de “how the cruel, with time, becomes classical”. O primeiro tema em formato IMAX, numa actuação que foi tratando de coleccionar pontos altos: em “Connect”, por entre erros informáticos e padrões geométricos feitos sem régua ou esquadro, Ezra sobe ao palanque anunciando que irão treinar escalas – e fizeram-no; “Unbelievers” vê a violinista de serviço dar baile com um colete reflector, qual funâmbulo percorrendo uma avenida estendida entre telhados; “New Dorp. New York.”, original de SBTRKT que contou com a participação de Ezra, teve direito a uma cover que foi um achado, um encontro entre a agitação funk e o sobressalto de um horror movie, tudo com muitas congas e (até) auto-tune à mistura, com Ezra a juntar-se à festa no segundo saxofone.

Os arranjos são primorosos, com ainda mais subtilezas do que as esculpidas nos discos, e temas como “Capricorn” e “Diane Young” – embebida em hélio – tocam a perfeição. “A-Punk” e “Oxford Comma” servem para fazer regressar o motim, antes de a beleza assentar com “Mary Boon” – um dos grandes temas da vida dos Vampire Weekend – e “Harmony Hall” – outro deles.

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Ezra Koening pergunta quem está num concerto dos Vampire pela primeira vez e quem é repetente, e também quem se aventurou num festival pela primeira vez, tratando de falar da importância e do prazer de se assistir a música ao vivo. “Esta é a nossa primeira vez em Coura, e é tão incrível como diziam”. Um elogio que se tornou ainda maior com um sentido “we love you Portugal”, que serviu de embalo a uma despedida com a aura de uma primeira comunhão ou baptizado, feita ao som de “Hope” – que soou assim como o “Tender” dos Blur. 20 anos depois, estes vampiros continuam a saber morder.

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A cantora e compositora londrina Nilüfer Yania surgiu em grande nível, enfrentando o calor implacável com uma atitude desafiadora e algo impenetrável. Em destaque esteve “My Method Actor”, o seu terceiro longa-duração lançado em Setembro de 2024, num concerto onde a electricidade se fez sentir no ar e na relva com o embalo de um gentil terramoto. Tudo na companhia de uma banda onde primava um saxofone incendiário, bem como loops que davam ainda mais corpo a uma música onde fantasmas circulam sem medo entre os vivos.

“Like I Say (I runaway)” parece reinventar, com sucesso, o eterno riff de “Loser”, de Beck; “Ready For The Sun” lança-nos o novelo tecido por Ariadne, construindo uma ponte com a malha anterior; “Call It Love” é Nilüfer em modo grave, música encantatória para um desfile de cobras em transe onde o saxofone faz as vezes de laço de embrulho; “Binding” é jazz planante, enquanto “The Dealer” nos oferece o momento mais pop da tarde, com a ameaça de palmas colectivas que acabaram por não pegar; em “Stabilise” há um sobressalto de drum n bass que poderia bem chegar à pista de dança numa remistura de Ela Minus – ou escrita pelos Bloc Party se estes não se tivessem extinto tão rapidamente. Há tempo ainda para uma extraordinária versão de “Rid Of Me”, eterno clássico de PJ Harvey, antes do encerramento com “Midnight Sun”, do álbum “Painless”, um roubo algo descarado a “Weird Fishes/Arpeggi” dos Radiohead. Começou com boas abertas e terminou num autêntico ciclone. Um regresso pela porta grande de Nilüfer Yania a Portugal.

MJ Lenderman tem o ar de um tipo tímido e acossado – e talvez meio aviado -, que lentamente vai ganhando confiança e, já sem dar por isso, arrisca uns movimentos de anca, como se a vida não pudesse ter corrido melhor. Rodeado de paus de incenso em lenta ebulição e de uma banda que esteve irrepreensível – os And The Wind -, Lenderman deu largas ao seu country/folk dominado pelo humor ácido e a ironia corrosiva, que conheceu o seu apogeu com “Manning Fireworks”, disco do ano passado que foi uma surpresa – e das boas.

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Há solos incendiários, óculos de sol usado com orgulho mesmo quando a noite já assentou, uns laivos de cowbell ou instrumentais carregados de electricidade, num concerto que cumpre o sonho de Kurt Vile de fazer do folk uma linguagem universal. “Isto é o maior número de pessoas para o qual tocámos. Vou tirar uma foto para mostrar à minha mãe no Arkansas”, diz um satisfeito Lenderman que, antes, nos tinha cantado sobre as suas perspectivas de carreira, confessando que “I wanted to be a catholic priest”. Sorte a nossa ter atirado com a vida religiosa às urtigas. Venha de lá esse concerto em nome próprio.

Fotos: Hugo Lima

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Pedro Miguel Silva

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