Em 2022, duas semanas antes da saída de “Ants From Up There”, uma das grandes rodelas do ano, Isaac Wood, co-fundador e vocalista dos Black Country, New Road (BCNR), invocava a saúde mental – ou a falta dela, neste caso – para deixar a banda abandonada ao seu destino. Uma decisão que obrigou esta banda de exímios músicos a lutar pela sobrevivência, construindo um novo e belo país que começou a ser desenhado em “Live at Bush Hall”, disco de 9 temas gravados ao vivo e lançado já em 2023, que foi praticamente tocado de uma ponta à outra no Meco na edição desse ano do Super Bock Super Rock. Os temas antigos, esses, foram esquecidos numa gaveta cuja chave de abertura foi deitada fora. Uma decisão explicada então por Charlie Wayne, um dos membros da banda: “Não me pareceu correcto tocar estas faixas. São canções que foram escritas por sete pessoas e foram feitas para serem tocadas por sete pessoas. Se não estivermos a tocar como sete pessoas, então não as vamos tocar. Continuamos a fazer música que soa a BCNR, que é tão forte como tudo o que tocámos anteriormente, só que é diferente. Não estaríamos a fazer estes espectáculos durante o Verão, se não tivéssemos confiança na música. As coisas que estamos a tocar são fantásticas”. Eram mesmo.

Nos dois anos seguintes, já sem o peso da pressão do tempo, a banda trabalhou afincadamente no seu terceiro longa-duração, mais uma surpresa que conheceu a luz da edição neste 2025. “Forever Howlong”, disco tocado integralmente no Vodafone Paredes de Coura mas sem seguir a ordem, mostra a banda mais focada no trio feminino constituído por Tyler Hyde, May Kershaw e Georgia Ellery, cabendo a Lewis Evans, Charlie Wayne e Luke Mark um papel mais discreto.
A banda assinou em Coura um concerto belíssimo, pleno de momentos de silêncio ou pura contemplação, que apenas poderia ter acontecido neste cenário. Um cruzamento entre um recital clássico, um musical Disney para adultos e um baile folk punk, protagonizado por um sexteto que é, nos dias de hoje, um dos mais excitantes e inventivos colectivos musicais – mesmo que o caos a que nos habituaram seja agora mais controlado, tendo a experimentação jazz dado lugar à vertigem folk.

O concerto abre com “Two Horses”, música que condensa tudo aquilo de que são feitos os BCNR: um carrossel de escalas, mudanças de direcção e cruzamentos de géneros musicais, capaz de se tornar a maior das atracções de qualquer Feira. “É um sítio bonito. Estamos contentes por estar aqui”. Sempre em clara contenção, limitando as suas interacções com o público ao mínimo para não dar cabo do ar de performance erudita, os BCNR foram coleccionando momentos altos, sendo o maior deles “Forever Howlong”. Fazendo as vezes de vocalista, May Kershaw foi maestrina e condutora de cinco flautistas do tema que dá nome ao novo disco, um momento de rara beleza que contou com um respeitável silêncio. “É o fim do show, devíamos repetir”, partilham antes de atacarem “Goodbye (Don´t Tell Me)” e “For The Cold Country”, sendo a despedida feita com um cunho político: “As pessoas da Palestina precisam de nós. Mantenham essas bandeiras desfraldadas”. Como é belo este sempre novo país dos Black Country, New Road.

Escolhendo como paisagem de fundo uma imagem que poderia ter sido arrancada do Dune de Frank Herbert, King Krule fez jus ao nome e foi Rei de Paredes, não se enganando nas contas e referindo ser já a sua terceira vez em Coura. Quase sempre de óculos de sol, Krule viajou entre a vertigem sónica e slows com nervuras e sons modulares, dedicando “Tortoise of Independency” a Diogo J. – “Acendam as vossas luzes ou lanternas e mantenha-nas ligadas a música inteira” -, pedido ajuda ao segurança para socorrer alguém do público, criticando ferozmente o governo do seu país – “Temos vergonha do governo britânico. Tem sangue nas mãos. Estamos muito felizes por estar aqui. Que se foda o genocídio” -, pedindo ao público para fazer o siiiii de Cristiano Ronaldo ou perguntando, enquanto o saxofonista surfava nas ondas populares – perdemos a conta ao número de crowdsurf´s, um deles com o saxofone nos lábios -, se estava com ar de Doutor. Doutor não, Mr. Krule: Rei!

Geordie Greep parece ser um daqueles génios loucos, capaz de nos atirar com meteoritos sob a forma de canções. Tendo como imagem de fundo… um relógio a mostrar as horas, o seu free jazz – kazz desgovernado em tradução livre – fez-se entre esmerados passos de dança, solos de guitarra, gestos de maestro, momentos de declamação e uma estranha fixação por… Cardi B. Um concerto onde cada músico teve o seu momento para brilhar, deste Geordie Greep Punk/Jazz Sextet que ainda deu origem a um clássico motim. Quem disse que o Jazz não dá nódoas negras?

“Era o festival que me faltava para sentir o coração pleno do país que me viu nascer”. Palavra de Dino D´Santiago, que trouxe o seu funaná certificado a Coura para assinar um concerto que merecia ter acontecido em horário nobre. Terminou no meio do público, embrulhado na bandeira da Palestina e, quando percebeu que afinal não tinha tempo para mais uma malha, aceitou o facto com o espírito cool de sempre. “Já ultrapassámos o tempo em 1 minuto e 23. Não podemos atrasar o pessoal. Obrigado por esta energia. Coura sempre!” Ainda, assim, despediu-se como se trauteando uma pergunta: “Is this love that Im feeling”? É pois. Estamos juntos, irmão.
Fotos: Hugo Lima
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Promotora: Ritmos











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