A presença de uma forma que ainda não se mostra nítida. Está escondida, escurecida, desenhada pela densa cortina de veludo avermelhado que permanece fechada mesmo após o baixar das luzes do grande e recheado auditório da Culturgest.
Ouvem-se palavras soltas de confirmação, que ecoam por detrás de um palco ainda em aberto de possibilidades. Estamos prontos, desde o início, desde a anunciação inicial. O burburinho ansioso de um começo imprevisível. A cortina permanece fechada. E se fosse assim? Um minuto de espera pré-começo que nos faz sentir a ânsia feliz da infância sobre o desconhecido. Lentamente, se abrindo — a revelação do cenário pela iluminação do som. Douglas McCombs a marcar presença impenetrável junto do baixo que se alonga sobre o mover dos seus gestos. John McEntire ao centro, seguindo o passo sinuoso sobre o computador instrumental que repercute uma electrónica medida, repetida, quase matemática, ritmada, acelerada, ora lenta, por vezes delirante, criativa, flutuante, trazendo a familiaridade de sons já conhecidos da banda mas sempre moldáveis, desde 1994, com o homónimo. James Elkington na criação e manuseio cuidado das cordas que se encaixam entre sons de uma guitarra de Jeff Parker, que não pode estar presente. Em espelho, Dan Britney e John Herndon. Frente a frente conversando na conjugação a quatro mãos sobre batidas quadradas e ritmadas que apresentam o tema que tudo principia: “Layered Presence”, a segunda composição do último álbum “Touch”, editado pela aclamada e reconhecida International Anthem, em altura de novas mudanças para a banda norte-americana, tendo sido gravado e pensado em pequenas e doseadas partes, entre Chicago (em grande recordação, no estúdio de Steve Albini), Los Angeles e Portland.

A comunicação viajante de cada elemento e o seu entendimento em diferentes meios. Como um quadro, a cena estática desconstruída pelos movimentos que iam surgindo sequencialmente das diversas áreas do palco. Num acto contínuo que se prolongou por todo o concerto, dançavam os corpos entre os diferentes instrumentos, mantendo uma relação firme dentro do grupo, numa conversa multifacetada que girava da marimba à electrónica, da guitarra à bateria, do teclado à pandeireta. Somente o baixo, na sua posição de origem, mantinha-se firme a McCombs. A música dos Tortoise reflecte desde cedo essa facilidade e curta permanência num único espaço, num único nome, numa única gaveta. Pós-Rock, Krautrock, Free Jazz, Experimental, Electrónica, Minimalista, obscuro underground e uma lista infinda de possibilidades. Nomes, influências, similaridades, lembranças pessoais como Trans AM; Dirty Three – recordando uma certa melancolia regenerativa ao som do arrastar das guitarras; Seefeel – ao tilintar electrónico ou mesmo Isotope 217, banda que conta com a presença do próprio Dan Britney, Jeff Parker e John Herndon, trazendo o Jazz ao de cima com Matthew Lux e Rob Mazurek, também editados pela Thrill Jockey, editora independente agora baseada em Chicago e que mantinha o catálogo musical de Tortoise até à data de Touch.

Criatividade excêntrica e a procura constante da aprendizagem. O começo que já se moldava por entre palavras e sons de fundo, passando pela ambientação ténue da quente e paradisíaca bossa-nova, aqui mais metalizada e afeiçoada pelo berço de um baixo grave, sentido no vibrar do peito, que ampara o ritmo praieiro da bateria, ora acompanhada por uma guitarra que escala em notas cintilantes e que nos conduzem a uma ligeira brisa de uma tarde de verão — “In Sarah, Mencken, Christ, and Beethoven There Were Women”, clássico bombástico da pluralidade de TNT. O divertimento no sorriso rasgado de Britney e Herndon e um grito que percorre todo o auditório: “Thought I was in space!”. O que mais poderíamos ouvir de um músico, de uma singularidade aqui colectiva, em memórias que expiravam do público. A confirmação do sentido. Não estávamos sós.

Explorações que nos deixam sedentos por mais, quase que embalados por algo venenoso, viciante, fogoso, hipnotizante. Como um escorpião que nos enlaça num doce e suave toque, tirando-nos as medidas, pairando, dando forma ao rosto que permanece incompleto, em sombra, meditando ao som do seu rasteiro caminhar. Assim nos guia McCombs e Elkington, sobre cordas em altos e baixos por estradas empoeiradas de um tempo antigo, um Chicago anterior, a cidade antes de ser cidade e a representação de um mito, o mito da guerra e esta ideia que permeia um imaginário colectivo doentio, contagiando um país inteiro cheio de promessas gloriosas. Por fim, o seu derradeiro e cruel acontecimento e a urgência, agora tão necessária de retorno à primordial a paz, à humanidade — na companhia de “Night Gang”. Variações de imagens, cenários distintos, uma viagem guiada pela mestria de um grupo em constante mutação, mas nunca se desviando de um objectivo musical muito claro e transparente de composição de uma maresia original.

Acabamos no mesmo espaço, sentindo a fusão profunda de um encontro que dificilmente esqueceremos — aí estás tu, no topo da colina, pairando sobre a outra margem, assistindo com um olhar atento e penetrante um concerto que agora se põe sobre a gigante colina, ecoando uma sensação de alegre despedida, por uma guitarra e um piano que lamentam e uma bateria que docemente aconchega. Assim, “I Set My Face to the Hillside.” Um aceno glorioso. Ver-nos-emos em breve, certamente.
Fotos: Vera Marmelo











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