Os The Beths são aquela banda que imaginaríamos ver tocar numa convenção de comics, cercados por super-heróis e vilões, perdidos num multiverso feito de banda desenhada, viagens no tempo e relações amorosas desajeitadas. Uma banda com um espírito abençoadamente nerd que, no LAV – Lisboa ao Vivo, protagonizou dois grandes momentos: primeiro, quando disseram ter algum tempo para matar no dia seguinte, mostrando vontade de visitar… o Museu dos Comboios, o que envolveu uma troca de palavras com o público que falou da possibilidade de um bilhete combinado, que os levaria de Lisboa ao Entroncamento garantindo desconto na entrada; depois, quando Benjamin Sinclair fez uma promoção ao seu blog, no qual escreve minuciosamente sobre a tour da banda, com referências gastronómicas (não faltam fotos de comida), passeios de carro ou, imagine-se, uma descrição de uma cabine de duche, incluindo um esquema para ilustrar a mal escolhida trajectória do jacto: “Floor and towel are wet”, lê-se na entrada sobre Madrid, deixando-nos em pulgas para o capítulo dedicado a Lisboa, o último porto de uma longa tour europeia.

Com uma sala não muito bem composta mas entusiasta, a banda neozelandesa percorreu uma respeitável discografia feita de quatro longa-durações, com destaque maior para “Straight Line Was a Lie”, rodela editada já este ano que, muito provavelmente, será o seu melhor disco; um compêndio de contos sobre relações falhadas que tenta responder à pergunta que muitos já colocaram a si próprios a dado momento da vida: quando uma relação que se julgava ir durar para sempre dá para o torto, como colar as peças e partir para outra?
A banda de Auckland atirou-se a 16 temas mais um extra no encore (“Take”), sempre com uma pop que cruza com esmero guitarras vibrantes com cordas que por vezes parecem chorar, num casamento feliz entre melodia e electricidade – em Coura teria sido agitado -, humor e melancolia, guiados pela capitã Elisabeth Stoke e um trio que, não raras vezes, se atira com dedicação às andanças corais, divertindo-se em palco como no se estivessem no parque de diversões.

Aquele momento em que Elizabeth toca, a solo, “Mother, Pray for Me”, enquanto a banda permanece sentada, talvez a pensar na última vez que ligaram às suas mães, foi delicioso. O mesmo com a apresentação da banda, onde ao estilo do amigo secreto cada um dos membros apresentou um companheiro, tratando de incluir uma nota pessoal.
Quase a fechar pausam “I’m Not Getting Excited” a meio, correndo cada um para a sua cerveja para um gole demorado – “Não pensava que iríamos mesmo fazer isto”, partilha uma satisfeita Elisabeth. Saímos de coração nerd cheio.
Fotos: Pic-Nic / Rafael Farias
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Promotora: Pic-Nic Produções











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