No dia do meio do Primavera Sound Porto 2025, começámos por fazer greve e acabámos, de cerveja na mão, a mandar passear a homofobia. Segue-se mais uma série de postais ilustrados, do dia em que no Parque da Cidade foi montada uma casa de praia com vista para o Cosmos.

Longe vão os dias em que Cátia Oliveira nos falava das amarguras sentidas durante um dia de casamento alheio. Em apenas três longas-duração, A Garota Não conduziu a canção de intervenção a um novo patamar, numa reflexão moderna, social e política sobre os tempos actuais, recuando sempre que necessário na linha temporal apenas para nos mostrar que há males que (ainda) persistem. No Primavera, por entre sindicatos, menstruação, greves e segregação, o destaque maior foi para “Ferry Gold”, disco recente onde às histórias pessoais, feitas dos sapatos que herdou da mãe ou da intimidade de um quarto, ergue um dedo do meio à privatização, resgatando textos e beats alheios. Um concerto sobre “famílias desarrumadas e lugares medonhos”, mas também sobre lugares de paz onde se descobrem motivos para continuar. Esta Garota sim.

Foi uma decisão difícil, tão difícil que acabámos por partir a coisa ao meio e perder boa parte dos concertos, divagando entre viagens e portagens. Primeiro fomos espreitar Waxahatchee, que à sexta rodela nos serviu o seu mais brilhante longa-duração, “Tiger`s Blood”, lançado em 2024. Muito bem acompanhada em palco e com a oferenda de um som no ponto, brindou-nos com o seu country encorpado, feito de esmerados arranjos e uma vulnerabilidade que apetece abraçar e levar para casa.

Quanto aos Been Stellar, quinteto praticante de um undergound com tanto de melancolia como de crítica social, passaram a missão com distinção, mostrando que um concerto no Lisboa ao Vivo será o melhor dos regressos a Portugal.

Foram, durante uns bons anos, o segredo mais bem guardado do indie rock, construindo uma sólida discografia até se terem decidido pela instalação do silêncio – a última rodela é de 2014. À boleia do 20º aniversário de “Desperate Youth, Blood Thirsty Babes”, o seu disco de estreia, os TV On The Radio voltaram à estrada em grande estilo, mesmo que sem um dos seus fundadores – Dave Sitek. No Porto, Tunde Adebimpe, Kyp Malone, Dave Sitek e Jaleel Bunton foram arrasadores, passando por cima de tudo e todos com o seu rolo compressor de caos organizado, lendo em português com a ajuda do tradutor, falando das coisas horríveis do mundo, enviando fascistas e o ICE – o americano Immigration and Costums Enforcement – para um sítio merecido ou pedindo a libertação da Palestina e de todos os povos oprimidos. O som esteve alto mas com uma qualidade e definição manhosas, o que impediu que tivéssemos sido happy idiots na plenitude. Nada que um regresso não possa reparar.

Há quem diga que, para que a felicidade aconteça, só é preciso haver amor e uma cabana. Uma afirmação muito freak e nada liberal que provou ser verdadeira no Primavera da Invicta, ainda que a cabana acabasse trocada por uma casa de praia. Com repetidas juras de amor eterno, onde não ficou esquecida a menção ao concerto de 2008 no Passos Manuel – ano em que tocaram também no Cabaret Maxime (Lisboa) e no CAE de Portalegre -, os Beach House ofereceram-nos um Cine-Concerto sublime, qualquer coisa como um cruzamento entre o Cosmos de Carl Sagan e Ann Druyan e os contos mais assombrosos dos manos Grimm, tudo num Chiaroscuro que faria de Caravaggio um menino. O momento Kodak deste Primavera.

Central Cee, o mais improvável dos cabeças de cartaz do Primavera Sound Porto – esperava-se por Sabrina Carpenter ou Chappell Roan -, esteve à altura da ocasião, revelando-se uma trapstar com um flow de fazer inveja. Fazendo da passerelle a sua casa, Oakley Neil Caesar-Su – como assina no CC inglês – distribuiu sorrisos, assinou blusões, filmou-se com telemóveis alheios – que devolveu com um carinhoso arremesso -, perguntou quantos brits andavam por ali e recordou a primeira passagem pelo festival dois anos antes, onde tocou a horas tão impróprias que não pôde pedir para que se acendessem as lanternas dos telemóveis. Com um pouco mais de atrevimento sonoro, o futuro do rap britânico (também) vai passar por aqui.
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Fotos: Hugo Lima
Promotora: Pic-Nic Promoções











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