No ano em que S. Pedro decidiu dar folga às galochas e às capas impermeáveis, passaram pelo Primavera Sound Porto cerca de 110 mil espectadores, numa edição que contou com um dia extra dedicado à música electrónica – brincadeira que (até ver) não será repetida na 13ª edição do festival, que tem já regresso marcado ao Parque da Cidade: 11 a 13 de Junho de 2026.
Os primeiros passes gerais para ficam disponíveis esta quinta-feira (19 de Junho), ao meio-dia, num período promocional que terminará às 00h00 de sexta-feira. Quem tiver guardado a pulseira da edição de 2025 poderá usufruir de um desconto adicional. Do cartaz nada se sabe ainda, mas por aqui já se vai sonhando com Radiohead, Gorillaz, The Blaze, Fred Again…, Lady Gaga ou Lorde.
Quanto à edição deste ano, começamos a nossa reportagem – sempre ao estilo de postais ilustrados – pelo dia em que Charli xcx nos mostrou que o verão passado vai mesmo durar para sempre – e que brat é a palavra que melhor resume 2024.

Ramones e os seus três eternos acordes apanhados num dia meigo? Velvet Underground sem qualquer noção de moda ou estilo? Surf rock nas ondas da Ericeira por entre um tubo de distorção? Tudo isto poderia ser dito dos Dehd, trio formado por Emily Kempf, Jason Balla e Eric McGrady que, na companhia de cães de louça num loop rosa perpétuo, nos prendaram com as suas guitarras em estado reverb. McGrady adoptou a concentração de uma aula spin, Balla dançou com a sua guitarra verde-brat e Kempf só por milagre não engoliu a pastilha elástica, que durou todo o set o que, na escola, lhe teria valido uma ido ao gabinete da directora. Houve tempo ainda para uma malha nova, mas acabou por não ser a sessão de Poetry que se desejava.

Os This is Lorelei, banda conduzida por Nate Amos – uma das caras-metade dos Water From Your Eyes -, viajaram do country à pista de dança em coisa de segundos, juntando à festa teclados ausentes, uma caixa de ritmos e o belo do autotune. Uma viagem ao pôr do sol pela imensa pradaria americana, com a bênção dos fantasmas e o espírito dos músicos ausentes.

Os Fontaines D.C. assinaram, muito provavelmente, o melhor concerto de 2024 na Lusitânia, numa noite no Campo Pequeno que deixou saudades e criou memórias. No Primavera da Invicta o público esteve uns furos abaixo, mas nem assim a banda de Grian Chatten e Cª tirou o pé do acelerador, com um empolgamento que tanto vale para os temas mais incendiários como para aqueles imaginados para serem cantados em coro, num concerto onde Free Palestine foi um grito. Em “Dogrel”, disco de estreia lançado em 2019, já nos diziam que “My childhood was small; But I’m gonna be big”, e a verdade é que se tornaram numa das grandes bandas do planeta, capaz de mudar de direcção sem perder o flow – sim, “Romance” é um disco do caraças. Qualquer que seja a idade mostrada pelo cartão de cidadão, com estes irlandeses o estado de espírito é apenas um: It`s amazing to be young.

A Pop sempre foi dada à experimentação, território capaz de ver nascer discos tão empolgantes quanto “Imaginal Disk”, o segundo longa-duração dos Magdalena Bay. Um disco conceptual sobre o que é afinal ser-se humano, de uma banda que, no seu cartão-de-visita, gravou isto: “synth pop directamente da simulação”. No Primavera, Mica Tenenbaum e Matthew Lewin levaram-nos através do seu mundo sonoro repleto de possibilidades, num cenário multi-colorido onde Mica mudou de outfit vezes sem conta, com um toque glamoroso que teria deixado Prince orgulhoso. Um dos melhores momentos pop da edição deste ano.

Muitos choraram quando se soube que a Sweat Tour, protagonizada por Charli xcx e Troye Sivan, apenas iria passar pelo Primavera de Barcelona, ficando Charli com a Invicta só para si. O que, vai-se a ver, acabou por ser uma sorte danada, transformando o concerto da britânica numa festa ininterrupta que, por aqui, elegemos como o momento Vroom Vroom da edição de 2025. Charli é a personificação da liberdade individual que, com muito estilo, vai fintando a confusão do que é ser-se uma rapariga nos dias de hoje – e de ontem. “Brat” foi o disco de 2024, capaz de pôr meio mundo a aprender a Apple Dance ou de se ter transformado na banda sonora não oficial da candidatura democrata às presidenciais americanas. No Porto, foi o alimento para uma noite libertadora, uma celebração do agora, um momento de pura festa e emoção. Parece que o Verão de 2024 vai mesmo durar para sempre.

Muito se tem escrito sobre Harrison Patrick Smith, que muitos consideram ser o irmão mais novo e estranho de James Murphy. É bem verdade que The Dare parece ser, à superfície do seu fato aprumado e óculos de sol, um cruzamento entre os LCD Soundsystem e os Men In Black, mas há também uma vertigem Prodigyana e letras de assinatura, que fazem do sexo a linguagem universal. Num palco que mais parecia uma sala forrada a colunas de som vintage, Harrison Patrick Smith foi um verdadeiro party animal, uma mistura de DJ e MC que elevou a dança a património mundial. Valeu e muito ter esperado até às 2h30.
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Fotos: Hugo Lima
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Promotora: Pic-Nic Produções











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