É de se lhe tirar o chapéu. Aos 78 anos, antes de se ver tomado pelo “esmorecimento da luz”, Julian Barnes coloca um ponto final parágrafo na sua carreira literária. E fá-lo em estilo – o seu – e com comoção – a do leitor – em “Partida” (Quetzal, 2026), romance que serve de despedida aos (seus) leitores e que finta, ainda que de forma ínfima, a agência da morte: “…este vai ser definitivamente ser o meu último livro – a minha partida oficial, a minha última conversa convosco. Acabar o meu último livro ao meu ritmo e depois silenciar-me tem pelo menos esta consequência útil: significa que não me cortarão a palavra – como temia Brian Moore – a meio da escrita”.
O ponto de partida é a história de um casal de namorados que, depois de uma primeira e falhada tentativa, acaba por se reencontrar quarenta anos depois, procurando um novo e mais feliz final para a sua relação. A partir deste acontecimento, no qual Barnes terá desempenhado o papel repetente de Cupido, o escritor inglês discorre sobre a memória – ou as memórias autobiográficas involuntárias (as MAI´s) -, a doença, o amor, a velhice e, claro, a morte, cada vez a morder-lhe mais os calcanhares – ele que, a dado momento, recebeu um diagnóstico de cancro que o tem acompanhado como uma sombra: “vai morrer com a doença mas não por causa dele”.
Pelo caminho, diverte-se a brincar – e a bater-lhe sem piedade – com Proust e a madalena que este mergulhou no chá, comenta o estado do mundo, confessa com orgulho ser um escritor híbrido, mostra-nos por que razão não é adepto de finais felizes e ainda nos dá uma possível definição de vida: “uma farsa com um final trágico ou, no seu melhor, uma comédia ligeira com um final triste. Ou, na antiga formulação, «uma comédia para aqueles que pensam e uma tragédia para aqueles que sentem»”. Que o esmorecimento da luz tarde em instalar-se sobre Mr. Barnes. Foi um privilégio lê-lo.











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