Já é conhecida a programação de Maio da ZDB, o aquário mais musical de Lisboa, a que não faltam concertos fora de portas. Ficam as apresentações, sempre com banda sonora.
SÁBADO 2 MAIO / 22H
Cinna Peyghamy ← Mariana Pinho
Quando o tumbak surgiu na vida de Cinna Peyghamy, surgiu a curiosidade para procurar uma forma que juntasse a técnica de aprender o instrumento com a sua fixação pela electrónica. Cinna Peyghamy toca tumbak ligado a um sintetizador modular, criando dois ciclos paralelos de ritmo, ambos analógicos e ambos, também, tradicionalistas às suas origens. Nas suas performances, ora procura belas melodias e fica hipnotizado – e hipnotiza – nelas, ora se deixa levar por ideias labirínticas que podem conduzir a becos aspirantes a noise.
Mariana Pinho é uma artista sonora e investigadora interdisciplinar. A sua pesquisa e prática têm estado ligadas à ecologia e ao som. Nas suas performances explora meios electro-acústicos, sintetizadores modulares e objectos sonoros auto-construídos.
SEXTA 8 MAIO / 22H
Colectivo Casa Amarela x ZDB: Jejum #40
– com Alto Aria e Conna Haraway
Conna Haraway é um DJ e produtor sediado em Glasgow que cria música de circuitos eléctricos descarnados para conforto sensorial. “Lusidiq” surgiu como álbum de estreia ancorado num imenso recife de gente disposta a mudar as perceções da música ambiental. Menos luz solar e mais penumbra lunar, fizeram de “Shifted” um capítulo especialmente introspectivo, além da crosta física.
Alto Aria é mais um astro ascendente na já sólida constelação dinamarquesa que nos últimos anos tem feito brilhar o panorama contemporâneo. Ao falar do seu trabalho, há que falar das faíscas da electricidade em suave convulsão com a voz e elementos acústicos que obedecem a uma noção de composição aberta, em constante revelação. O álbum “Ephemeral”, soprou o projecto para o mundo e, em 2026, chegou a continuação incontestável: “Stars Align”.
SÁBADO 9 MAIO / 22H
Steve Gunn apresenta Daylight Daylight ← Martim Beles
Steve Gunn experimenta, com brio e consistência, uma combinação própria de voz, escrita e guitarra e leva-a para os horizontes que sente possível em determinado momento: seja a solo, com banda, seja em registos mais experimentais. Traz-nos “Daylight Daylight”, disco de canções editado no ano passado, menos banda e mais Steve Gunn com arranjos, em que se ouve uma carne mais polida, enquanto a voz se mistura com uma fragilidade a la Mark Hollis.
A música de Martim Beles – artista que acaba de lançar o seu EP de estreia – movimenta-se entre o Indie-folk. Apresenta quer canções mais íntimas, quer canções de crítica social e pessoal, acompanhadas de guitarras influenciadas pela sua fixação na sonoridade dos anos 60, juntamente com exageradas layers de sintetizador.
SEXTA 15 MAIO / 22H
Rita Braga apresenta Fado Tropical ← Inóspita
Rita Braga tem feito carreira em reformular cancioneiros. O seu novo álbum, “Fado Tropical”, resulta de uma busca por temas esquecidos, dos primórdios do fado, que renascem agora com cores que lhes servem para o presente. Os arranjos com ukelele, marimba, vibrafone, violoncelo, saxofone e o uso de sons concretos tornam este fado num lugar encantatório. O fado, música de raiz, pode aqui viver um lado burlesco, teatral, em que nada parece desajustado, apenas reintegrado no aqui e hoje. O novo álbum será apresentado na companhia de Rui Rodrigues, na percussão, e João Cabrita, no saxofone.
Inóspita, alter ego da lisboeta Inês Matos, é a procura de um compromisso com o formato da canção e de uma abordagem própria ao seu instrumento, privilegiando a narrativa melódica apenas à guitarra.
SÁBADO 16 MAIO / 22H
Search or Enter ← Fred Lonberg-Holm / Karoline Leblanc / Paulo Ferreira Lopes
O conjunto colaborativo Search or Enter é um novo grupo que reúne alguns dos músicos mais conceituados da actualidade no campo da música improvisada e do jazz. A formação de ‘duplo trio’ do Search or Enter conta com o duelo de contrabaixos de Michael Formanek e Hernani Faustino, o duelo de saxofones de Rodrigo Amado e John O’Gallagher e o duelo de baterias de Jeff Williams e João Pereira.
Na primeira parte do concerto dá-se o reencontro do violoncelista norte-americano Fred Lonberg-Holm com o duo luso-canadiano composto pelo baterista Paulo Ferreira Lopes e pela pianista Karoline Leblanc. Free Form music, na sua expressão de imediatidade absoluta, é o vínculo deste trio.
DOMINGO 17 MAIO / 19H / ZDB 8 MARVILA
NU NO — Canto Ventríloquo
Trata–se de comunicar a inquietante estranheza da língua. A voz emanada do amplificador carece do timbre corpóreo distintivo da voz humana natural. A partir dos fragmentos do sentido, é precisamente no maquinismo, num ponto de ruptura, que se formula então, de súbito, a nostalgia da comunicação.
É assim que NU NO, ou Nuno Marques Pinto, expressa a natureza de ‘Canto Ventríloquo’, álbum que apresentará – em formato peça-concerto – na ZDB 8 Marvila, na sequência de uma residência artística nesse mesmo espaço. Seguindo-se a registos como ‘Turva Lingua’ ou ‘Invenção Única’, neste seu novo álbum editado pela francesa La République des Granges, NU NO continua o seu processo de disrupção das lógicas canónicas e formais da linguagem, onde o corpo se faz voz para daí assumir uma multiplicidade de significantes e significados, sob a forma de repetições obsessivas, urros, palatos rítmicos, processamento, corte e colagem, canto ou declamações.
TERÇA 19 MAIO / 21H
Juana Aguirre
Uma contínua generosidade com o presente ajuda na crença de que muita da intersecção do indie-folk com a electrónica existe como algo novo. O álbum de estreia de Juana Aguirre surgiu em 2021, “Claroscuro”, e no ano passado inventou anónimo, disco que se pode alinhar tanto com Marina Herlop, Tarta Relena, os Radiohead de “Kid A” ou os Olivia Tremor Control, sem estar tudo no mesmo saco. Entre anónimo e o dia de hoje, Juana Aguirre fez o favor de editar um disco ao vivo, “una casa sin esquinas”, onde as canções se transformam em coisas quentes e fantasmagóricas, belas e eloquentes. Juana Aguirre pode não consagrar o novo, mas carrega uma ideia de “nova folk argentina” com o vigor necessário para nos convencer de que isto pode ser a nossa próxima redenção.
QUINTA 21 MAIO / 21H
Big|Brave
Banda de bravura no epicentro da música de Montreal no Canadá, Big Brave tem-se aventurado num plano de acção que sem comprometer o peso, a intensidade e o volume não deixa de revelar uma noção de espaço, tensão e vulnerabilidade pouco sentidas numa torrente tão impositiva aos sentidos. Numa prova de culto crescente, Mathieu Ball, Robin Wattie e Tasy Hudson regressam pela quarta vez ao palco da ZDB, desta vez após período em residência na ZDB 8 Marvila e deixando para trás a bateria, para sempre.
DOMINGO 24 MAIO / 19H
Pharmakon ← Ändlös Otukt
Mais de meia década passada desde a edição de “Devour” e sete anos desde que arrasou no palco do Aquário, Margaret Chardiet regressa a esta casa em apresentação de “Maggot Mass”. Quinto álbum da artista norte-americana, como sempre na influente Sacred Bones, “Maggot Mass” reinvindica o lugar central e a esfera de influência de Pharmakon no seio das músicas nascidas da catarse violenta e violentada ao abrigo daquilo que é, e ainda pode ser o noise e power electronics naquilo que estes têm de mais vital e urgente, assente numa ética muito punk.
Ändlös Otukt é um projecto a solo português que começou por juntar uma abordagem electrónica ao género de black metal, a uma inegável influência industrial e de noise. A sua intenção artística acaba por ser sempre criar obras inquietantes e assustadoras, com uma estética liminal.
SÁBADO 30 MAIO / 22H
Odd Okoddo & Ogoya Nengo ← KUNTARI
Fruto da união de três talentos excecionais – Sven Kacirek, colaborador do Nyege Nyege e baterista experimental sediado em Nairobi; Ogoya Nengo, conceituada artista folk de 83 anos; e Olith Ratego, cantor e compositor de dodo e luthier –, “PALAGOMA”, o álbum a ser lançado pelo trio em breve, é uma mistura fervorosa de correntes tradicionais quenianas e música electrónica minimalista e sentimental. Dentro da base de folktrónica de contornos bem definidos do álbum, o trio esculpe mensagens de amor, dor e coragem que se inspiram nas suas múltiplas trajetórias.
Fruto da inquieta deserção de Tesla Manaf da ortodoxia do jazz e de um encontro com o seu congénere Rio Abror, os Kuntari dissecam a tradição com um instinto cirúrgico, reconstruindo-a sob a forma de um «primal-core»: os ecos guturais de chamamentos de acasalamento e ritmos tribais indonésios ressuscitados do século XVI fundem-se num ritual selvagem, os roto toms rosnam com ressonância cortante enquanto a guitarra percussiva de Tesla se transforma num instrumento de poder cru e vibrante.











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