Já lhe chamaram princesa da Disney mas, por esta altura, bem que podia ser coroada Imperatriz. O único dia esgotado do NOS Alive deveu-se a ela, e Olivia Rodrigo mostrou a razão de ser uma das mais entusiasmantes artistas da actualidade, capaz de aliar uma afiada escrita de canções a um electrizante pop/rock. Ao rubro esteve também o Palco Heineken, onde assistimos aos triunfos absolutos do artesão da electrónica Barry Can’t Swim e dos Glass Animals, banda com um universo muito próprio que, depois do cancelamento de 2022, provou que continua a ser uma das grandes. Ficam os nossos postais ilustrados de dia 10 de Julho.

Nos frenéticos anos 1990, entre os muitos estilos, géneros e movimentos musicais, houve um que terá passado um pouco ao lado, mas ainda assim fundamental: o The Riot Grrrl Movement, ou Grrr Power, uma sub-cultura da cena punk com foco no empoderamento das mulheres e no activismo feminino, liderado por bandas como Bikini Kill, L7 ou Heavens To Betsy. Olivia Rodrigo pode estar a alguns decibéis da sub-cultura punk mas, por detrás do seu sucesso – sobretudo – junto da Geração Z e de uma polaroid da adolescência, mantém uma forte ligação aos direitos civis, seja no apoio à educação das mulheres, à prevenção da violência de género ou, mais recentemente, pedindo ajuda para Gaza. Uma Riot Grrrl de 22 anos, portanto.
Num NOS Alive esgotado (só) para a ver, Olivia Rodrigo não desiludiu, mostrando que o presente e o futuro do rock passam por ela. Entrando ao som do “We Got The Beat”, das The Go-Gos, sempre na boa companhia de uma banda de mulheres talentosas, Olivia Rodrigo aliou a boa comunicação com o público a um flirt com as câmaras, numa realização cinco estrelas que soube usar e bem os três ecrãs disponíveis, com muito de cinefilia – como quando surgiu qual funâmbulo, pisando um arame, ou reflectida num espelho que parecia saído de um romance de fantasia.

Entre a guitarra e o piano, Olivia agradeceu os cartazes, recordou os pastéis de nata, pediu para que se cantasse “Driver`s License” sem medo de ultrapassar o limite de velocidade ou partilhou que a sua mãe estava certa quando lhe disse que aquele desgosto de amor que então a corroia iria passar.
A celebração terminou com “Get Him Back!” cantado ao megafone, isto enquanto confettis caiam do céu com vista para uma cascata de faíscas. Grrrl power.

Para aqueles que gostam de música electrónica, o concerto de Barry Can’t Swim foi um verdadeiro tratado. A poucas horas da saída da nova rodela – “Loner” -, o produtor escocês fez-se acompanhar por um baterista e uma teclista – e, a espaços, vocalista e dançarina exemplar -, num exercício de música de dança ao vivo onde, para lá de se chegar à frente como DJ, ainda pegou no baixo e fez correr as teclas brancas e pretas do teclado.

“Isto é uma loucura”, disse a certa altura, momentos antes de discorrer sobre “Deadbeat Gospel”. Uma canção que nasceu em Dublin, a partir de um encontro com somedeadbeat, um poeta e amigo que Barry não via há seis anos e que decidiu recitar um poema seu enquanto Barry e companhia se preparavam para actuar. Barry sacou do telefone, pôs a gravar e pediu-lhe para recitar mais uma vez, o que acabou por resultar num dos hinos maiores do produtor, fundindo uma energia difícil de conter com uma ressonância emocional que se sente na pele. A fechar houve “Sunsleeper”, momento em que à bandeira irlandesa já desfraldada se juntaram muitas pessoas às cavalitas de outras, num raro e sentido momento de união. Se não foi o maior concerto do NOS Alive andou muito lá perto. Podemos repetir?

Que concerto, minha gente. Envergando a camisola com o número 16, Dave Bayley liderou os Glass Animals numa noite mágica, mostrando que a banda tem já um considerável culto em Portugal. O que não é para menos, graças a uma respeitável carreira discográfica que já nos presenteou com quatro rodelas com muito de autoficção lá dentro: “Zaba” (2014), disco de estreia, serviu para patentar um som com assinatura; “How to Be a Human Being” (2016) foi um passeio de personagens fictícios, inspirados em pessoas que conheceram durante as digressões; “Dreamland” ofereceu-nos uma sessão introspectiva, onde Bayley se deitou no sofá e recuou à infância para falar de relações complexas; já o recente “I Love You So F**ing Much” (2024), explorou temas como o amor e a vulnerabilidade emocional, reflectindo a experiência de Bayley com a fama após o sucesso de “Dreamland”.

No NOS Alive, o caldeirão de synth pop, indie, R&B e hip-hop onde a banda se diverte a fazer as suas poções borbulhou em lume bem alto, num concerto onde o chapéu de cowboy substituiu o cap ou se distribuiram ananases. “Amamos este festival, amamos este feeling, amamo-vos”, dispara Dave Bayley pouco antes de nos aquecer com as suas heatwaves. Nós, criaturas no céu, também os amamos. Agora é esperar por um concerto em nome próprio, já este ano ou no próximo. Promotoras deste país, quem se chega à frente?

Benson Boone é aquele rapaz que todas as mães gostariam de ter… como genro. Apesar de ter deixado no armário o outfit estiloso que colocaria à mostra um bom pedaço de pele, indumentária comprometida por 30 minutos de praia que o deixaram rosado como uma lagosta – palavras suas -, Benson vendeu charme – disse ter tirado 4 dias de férias para conhecer Lisboa -, mostrou presença de palco, deu os mortais da praxe – há quem tenha contado 8 – e mostrou-se dono de uma senhora voz, que precisa de canções à altura. O potencial está lá, mas este American Heart – de quem é impossível não gostar – necessita urgentemente de um produtor cardiologista que o faça bombar.

“Guitar music is never dead”. Foi com estas palavras que Bobby Nerves, líder dos Bad Nerves, se despediu no NOS Alive, num concerto que parecia perdido de entrada e acabou por ser uma tremenda celebração rock – antecedida pelo som de “Do You Remember Rock and Roll”, dos Ramones. Recorrendo por diversas vezes ao português, sempre com um sorriso convidativo e gestos para que todos se juntassem à festa, Bobby liderou uma banda de semblante e postura teatrais, apontando o dedo à televisão – “entra directamente no vosso subconsciente, ataca-vos, faz com que as vossas crianças se virem contra vocês” -, pedindo para que as mãos saíssem dos bolsos e os telefones fossem guardados – “para recebermos de bandeja os segredos do universo” -, ou colocando a hipótese deste poder ser o último concerto – o nosso e o deles. Tudo com muitas variações de andamento e mudanças de direcção. Afinal, existe mais do que uma forma de tratar do nervoso miudinho.

Os Kings of Leon há muito que tinham cancelado, mas Mark Ambor decidiu trazer-nos um cover de “Use Somebody”, numa versão bem mais fofinha que a original. Fofinho será talvez o melhor adjectivo que se pode dedicar a Mark Ambor, praticante de uma música sem grande alma que conheceu o seu ponto alto com “Belong Together”. Veremos se, tal como Macaulay Culkin em Sozinho em Casa, não será coisa para durar pouco.

São uma espécie de segredo bem guardado da música portuguesa. Formados pelos manos Filipe e André Cameira, os Motherflutters podiam bem ser os primos tugas dos Jungle, movendo-se entre a benção da disco, o sobressalto do funk e o balanço da pop. Tal como no Bons Sons, festival onde deram cartas em 2022 – um ano antes da saída do longa-duração “Together -, espalharam o poder da dança no palco Clubbing, sempre com a flauta na linha da frente. Bem bom.

Formaram-se em 2018 em Portugal, mas a verdade é que provavelmente dariam tudo para terem nascido em Seattle durante os anos 1990. Projecto de André Rosa, Daniel Braga, Francisco Ferreira, Rafael Enguiça e Sérgio Seco, os Green Leather dizem-se praticantes do croc rock, uma misturada entre hard rock e grunge a que se adiciona alguns pozinhos de indie e funk. Abriram com estilo o Palco Heineken, e ainda acabaram a oferecer dois crocodilos-bóia, que foram vistos a passear pelo recinto sem que se tivessem registado quaisquer ataques.
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Fotos:
Hugo Macedo/NOS Alive (Olivia Rodrigo, Benson Boone, Bad Nerves)
José Fernandes/NOS Alive (Barry Can’t Swim, Mark Ambor)
Guilherme Cabral e Nuno Cruz/NOS Alive (Glass Animals)
Sarah Hawk/NOS Alive (Motherflutters, Green Leather)
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Promotora: Everything is New











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