O último dia do NOS Alive trouxe-nos uma musa peculiar, um par de olhos que brilham no escuro, uma máquina punk em curto-circuito e um concerto-filme Lynchiano. Fechou em grande a edição de 2025 do festival que, em 2026, regressa entre os dias 9 e 11 de Julho. Ficam os últimos postais da edição de 2025, com o selo de 12 de Julho.

Para aqueles que enchiam as filas da frente do Palco NOS, guardando já o seu lugar para Muse ou Nine Inch Nails, a estrela pop CMAT ofereceu um dos mais teatrais e divertidos concertos desta edição, fazendo juz à sua reputação de entertainer desbocada.
Acompanhada pela “The Very Sexy CMAT Band”, capaz de juntar ao ofício musical a arte da coreografia, a irlandesa tratou desde logo de se – nos – colocar à vontade: “Sou demasiado ruiva para estar neste país. Não devia divertir-me tanto”, disse enquanto bebia uma cerveja antes de um preâmbulo geográfico: “Venho de um lugar distante”.

Durante cerca de uma hora, CMAT foi coleccionando pontos altos, fosse mostrando o seu amor a Garfield, falando dos vídeos que circularam e dos comentários pouco próprios que recebeu – momento em que aproveitou para todo o tipo de poses cómico/lascivas -, dando tempo de antena a uma rapariga que segurava um cartaz, ensinando a dança dos dois passos ao lado ou, depois de um elogio ao pastel de nata, parar o concerto para comer um, oferecido por alguém que estava muitas filas atrás e acabou por conseguir furar para lhe trazer a oferenda – “Não tenho tempo para a canela. Ainda estão quentes! A Internet vai adorar isto. Manda-me uma mensagem que eu envio-te uma T-Shirt”. Toda a musa precisa do seu pastel de nata. Com ou sem canela.

A sad indie music de Connor Oberst e dos Bright Eyes iluminou o Palco Heineken, banda que tenta recuperar algum do fulgor que conheceu há duas décadas atrás. Numa actuação em crescendo, Connor falou sobre novos começos, dos tempos complicados da sua América, da necessidade de acendermos todas as velas que temos, deixando algures uma mensagem anti-belicista: “Sempre que atirarem alguma coisa, ela virá atingir-vos de volta”. Acabou a dançar junto das grades e a trocar abraços, e só faltou mesmo assinar a capa do vinil que uma jovem segurava como um bem precioso. “I will never be happy again”, cantou a dado momento, e a verdade é que acreditamos nisso. Se virem Connor Oberst por aí, tratem de lhe dar um abraço.

“How the fuck are you?”. Quem cumprimenta assim o público, deitando a língua de fora como se fosse um lagarto australiano, só pode ser boa gente do punk. Amyl and the Sniffers ofereceram a um quase lotado Palco Heineken uma sessão de punk rock em celebração da desobediência civil, trazendo ao de cima o espírito de fora-da-lei que cada um tem de mostrar em tempos onde o poder parece estar nas mãos de quem não o merece.
Os seguranças não tiveram mãos a medir com o crowdsurf que vinha desaguar para lá das grades, desta banda em grande forma onde todos querem fazer parte da festa. Amy ia cuspindo para o chão entre canções, e não perdeu a oportunidade de posar como Mulher Hulk para as câmaras; o baterista aviou um penalty de cerveja, isto depois de lhe serem cantados os parabéns; o baixista fica a dado momento sem a camisola e, quanto ao guitarrista, arranjou forma de mandar uma boca aos Muse, que por esta altura iniciavam o concerto no Palco NOS.

Amy disse não ter as respostas para o ar de fim do mundo, mas falou da importância ética e cívica que cada um tem de mostrar: “Às vezes temos de falar”, comentou sobre a situação vivida em Gaza, momento em que alguém do público lhe faz segurar uma bandeira minúscula da palestina, que depois de acenar enfiou nas suas estilosas botas. Um grande concerto de uma banda que, por esta altura, está no seu Everest.

“Quando estou feliz não componho, apenas quando me sinto zangado. Obrigado por estarem aqui”. As palavras são de Trent Reznor que, neste regresso ao NOS Alive com os Nine Inch Nails – onde actuaram em 2018 –, foi menos dado à comoção e mais à tempestade, a que ajudou e muito uma realização vertida num preto e branco – que poderia ler-se como um tributo a David Lynch, realizador com o qual Reznor percorreu a Lost Highway. Tudo com o volume bem alto, visuais capazes de estimular tremores e chaminés industriais em plena laboração. Não há corta-unhas que se consiga aproximar das mãos destes rapazes.
Fotos:
Hugo Macedo/NOS Alive (CMAT)
Sara Hawk (Nine Inch Nails, Bright Eyes)
José Fernandes (Amyl and the Sniffers)
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Promotora: Everything is New











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