No dia do meio do NOS Alive, o Palco NOS assistiu, quase em sucessão, ao melhor e ao pior daquilo que a música electrónica pode oferecer, numa viagem que começou pela genialidade da composição e terminou com muito cenário – apenas para esconder o desempenho de um péssimo actor. Mas nem só de electrónica se fez o 11 de Julho, dia em que tivemos, por exemplo, uma Santa que parece estar cada vez mais nova. Fica mais uma série de postais ilustrados.


Foi, para muito boa gente que frequentou o Primavera Sound Porto em 2024, uma desilusão de todo o tamanho. Depois de o palco ter afundado sob o peso de toda a parafernália sonora e cénica que tinham trazido para fazer a festa, os Justice acabaram por cancelar o concerto, sem sequer terem cortado o bolo. O regresso deu-se agora no NOS Alive, com um set a horas estranhamente decentes no qual Xavier de Rosnay e Gaspard Augé colocaram a música electrónica no pedestal a que tem direito.



Quase sempre de perfil, fundidos em ecrãs que mostravam o princípio, o meio e o fim da vida, a dupla serviu-nos um best of de uma carreira imaculada, onde coube prog, metal, new wave, indie, vintage funk, disco, house e techno. Em foco esteve “Hyperdrama” (2024), o mais recente longa-duração, mas houve muito mais nesta viagem entre a luz e a sombra, uma celebração da música feita à medida para esqueletos dançantes. Magnifique.

No ano 2000, chegava ao grande ecrã um dos filmes predilectos aqui da redacção. Realizado por Cameron Crowe, “Almost Famous” contava a história de um teenager, aspirante a jornalista musical, que embarcava numa missão: escrever um artigo sobre os Stillwater, que acreditava poderem ser uma das últimas bandas com o espírito original do rock & roll. O vocalista dessa banda fictícia, de nome Russell Hammond, foi representado no ecrã por Billy Crudup, que é incrivelmente parecido – no look e nas expressões – com… Joshua Harmon, guitarrista, vocalista e figura proeminente dos The Backseat Lovers. Mas há muito mais do que parecenças físicas a unir estas duas bandas: o som de um tempo que parece deslocado, uma certa pureza não contaminada pela indústria, um rock que permite regressar ao passado sem o peso da nostalgia.

Na sua estreia em Portugal, que teve lugar no abençoado Palco Heineken, os The Backseat Lovers superaram todas as expectativas, mostrando-se eles próprios surpreendidos pela devoção com que foram recebidos: “Que sítio lindo, é uma honra”, comentou Joshua Harmon, que mostrou saber assobiar tão bem como Andrew Bird – já de si um pequeno feito.
Os temas soaram bem mais expansivos, instrumentais e atmosféricos que em disco, num fim de tarde memorável onde todos quiseram dar um pulo ao banco de trás, esse território da iniciação e do mito. Um dos grandes concertos desta edição.

Finneas O’Connell é rapaz para, de vez em quando, ser tratado como o irmão da Billie Eilish. É verdade que tem tentado mostrar que há vida para lá da de produtor da mana mais nova, mas “Optimist” – o seu primeiro longa-duração em nome próprio – revelou-se, no seu todo, uma grande maçada. Ao vivo, porém, a coisa funcionou bastante bem, naquela que pareceu ser uma sessão de estúdio com público. Mostrando uma elegância rara, Fineas recusou a oferta de roupa interior, filmou com esmero a partir de um telemóvel atirado para palco, falou da sorte tremenda que é poder fazer vida da música e fez ainda um rasgado elogio a St. Vincent. Saiu do NOS Alive com razões para continuar a ser optimista.

O prato principal do NOS Alive foi uma mistura entre publicidade enganosa e uma festa num beco de ar duvidoso em Ibiza. Muitos foram os que torceram o nariz à nomeação de Anyma como cabeça de cartaz, e a verdade é que Matteo Milleri, produtor de música electrónica italo-americano, DJ e artista multidisciplinar, não mereceu tal honraria. As imagens projectadas estiveram longe do efeito apresentado na Sphere, vídeo que correu como publicidade da actuação no NOS Alive. Quanto à música, é qualquer coisa como uma sessão ininterrupta de carrinhos de choque com o CD encravado no repeat. Provavelmente o pior cabeça de cartaz da história do NOS Alive.

Depois de em 2022 terem pisado o Palco NOS, os Mother Mother regressaram três anos depois a Algés, agora ao Palco Heineken. O que está longe de ser uma despromoção, neste que é, roubando a designação ao mundo futebolístico, o palco dos sonhos. Composta por Ryan Guldemond (voz, guitarra), Molly Guldemond (voz, teclados), Jasmin Parkin (voz, teclados), Ali Siadat (bateria) e Mike Young (baixo), os Mother Mother alcançaram o estrelato ao oitavo disco de estúdio, quando “Hayloft II” se tornou num dos hinos mais celebrados no TikTok. A verdade é que a banda soube capitalizar este sucesso, e quem os vê ao vivo dá sempre o tempo por bem entregue. Só tivémos tempo de espreitar as primeiras malhas, tendo perdido a cover que a banda fez de “Hot To Go!”, de Chappell Roan. Alguém nos conta como correu?

A norueguesa Girl in Red, que no cartão de cidadão do país do frio vai assinando como Marie Ulven, conheceu o percurso inverso ao dos Mother Mother, movendo-se como peixe na água num palco com uma prancha ideal para praticar os seus saltos e habilidades. Não foi tão íntimo como o concerto do Palco Heineken de há uns anos, mas nem só de intimidade se fazem os bons concertos.

Envergando um blazer preto de bom corte, Marie Ulven deu mais um show de bola nesta sua passagem por Portugal, fosse quando brincou dizendo que “Lisbon” e “Lesbian” eram quase iguais, fazendo deslizar uma guitarra eléctrica na passadeira como se fosse uma bola de bowling, pedindo que ficássemos loucos como se tivéssemos acabado de aviar 100 cervejas, brincando com o patrocínio da Heineken enquanto fazia de robot ou falando da primeira canção que escreveu sobre gostar de uma mulher – “e não foi a última”, disse entre sorrisos. Precisa de sair um pouco mais da bolha criativa em que está metida, mas há aqui talento de sobre para se tornar numa das grandes.

A missão entregue aos The Wombats era uma daquelas que nem mesmo Tom Cruise, o rei de toda a impossibilidade, se atreveria a pegar: substituir o working class man Sam Fender, praticante de um indie rock de grande coração e letras que dão trabalho à consciência, que deu cabo das cordas vocais e teve de ficar em casa para nosso choro compulsivo.
Os The Wombats regressaram ao NOS Alive 13 anos depois – “os alt J andavam por cá”, arriscou Mathew Murphy -, e a verdade é que cumpriram a tarefa mas sem particular distinção. O melhor ficou guardado para o final, quando um simpático grupo de vombates – animal marsupial originário da Austrália e mascote da banda – se juntou à festa para dançar Joy Division. Por esta altura só pensávamos nisto: Love Will Tear Us Apart, Sam Fender.

Finneas elogiou-a horas antes, dizendo ser um privilégio poder vê-la ao vivo. Annie Clark, mais conhecida nos manuais religiosos como St. Vincent, saiu do NOS Alive com mais um triunfo, parecendo ter descoberto o elixir da eterna juventude a que muitos dedicaram a vida numa louca demanda. Com um alinhamento onde dominou o novo “All Born Screaming”, St. Vincent surgiu em palco liderando uma mini-equipa dos All Blacks, fazendo do preto a cor oficial do Palco Heineken por aquela hora.

“Espero que tenham tomado todas as drogas para estarem acordados agora. E que um dia as partilhem comigo”, atirou, mostrando-se feliz por voltar a um país onde tem sido bem feliz. Há quem segure um cartaz que soa a agradecimento – “You brought me back to life with your music” -, e de facto há que agradecer a dádiva de poder assistir a um concerto desta mulher de 42 anos, que tem a energia da PJ Harvey dos seus 18. “Por muito mau que isto pareça, havemos de superar isto. Eu e vocês”, atira Annie Clarke, adepta dos instrumentos estranhos e do flirt com os seguranças, antes de se atirar para o público num destemido crowdsurf. Em nome do pai, do filho e de Santa Vicente.
Fotos:
Tomicornio/NOS Alive (Justice)
Sara Hawk/NOS Alive (Anyma, The Wombats)
José Fernandes/NOS Alive (St. Vincent, Girl In Red)
Guilherme Cabral/NOS Alive (The Backseat Lovers)
Hugo Macedo/NOS Alive (Finneas)
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Promotora: Everything is New











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