“Let Me Entertain You”, pediu-nos Robbie Williams em 1997, algo que foi fazendo com os altos e baixos próprios de uma montanha-russa – a vida, afinal, raramente segue a direito. No Meo Kalorama, num dia em que disse estar tomado por uma qualquer maleita, brindou-nos com um dos melhores concertos desta edição, que teve muito do que se pode esperar de um cabeça de cartaz: uma esmerada presença de palco, boa conversa, uma senhora banda, coros incríveis, visuais tremendos, narcisismo a rodos e um sentido de humor bem à inglesa.
A entrada fez-se ao som da Marcha Imperial de Star Wars, com o entertainer inglês a ir directo ao assunto: “O meu nome é Robbie fucking Williams. Portem-se bem, esta é a minha casa. Sou fucking fenomenal”. Nas colunas escutava-se “Let Me Entertain You”, enquanto nos ecrãs iam passando imagens de uma vida preenchida, uma constante deste concerto que teve a mesma nostalgia do folhear de um álbum de fotografias antigas.

“Não devia partilhar isto aqui, mas vi alguém com que dormi nos anos 1980. Na altura não tinha barba. Era um amante muito gentil”, atira, enquanto na imagem surge um tipo que Robbie brinda com um “Olá, Pedro”, arrancando para uma maratona de humor e (falso) narcisismo que foi uma delícia de se ver.
“Algumas noites pergunto-me se ainda tenho aquilo que é preciso. Serei apenas um dançarino gordo? Os meus melhores dias já terão passado? Tenho 4 filhos e preciso que saiam de casa”, continua em modo de stand up, servindo êxito atrás de êxito com uma invejável naturalidade.

Em “Rock DJ” surge envolto em peles, enquanto vão correndo imagens de “Better Man”, uma das mais estranhas, arriscadas e originais biografias já levadas ao grande ecrã. “Viram o meu filme? O melhor filme de sempre? Ainda melhor que o Padrinho 1 e 2? Que devia ter ganho 9 Óscares?”. Dá-nos depois a conhecer o seu momento zen, que pôs fim a um reinado em que foi “bem-sucedido” mas andava “perdido”: “A minha vida só começou quando conheci a minha mulher. O Robbie dos anos 90 tem agora 4 filhos. E todos da mesma mulher! Não sei como o consegui”. Momento terno que dá lugar a “I Love My Life”, tema que poderia ter sido escrito por uma ovelha tresmalhada encadeada pela luz do senhor – ou o túnel do amor, no caso de Robbie.
Relembram-se os tempos dos Take That, onde Robbie recuperou o momento que, provavelmente, partiu a banda ao meio. “Nunca fui autorizado a cantar as linhas principais na banda. A única vez que tentei fui uma merda e puseram o (Gary) Barlowe. Hoje é dia de reclamar “Relight My Fire”, a canção que me deixava triste quando a escutava na rádio”. Barlowe que, mais tarde, viria a mostrar arrependimento por ter passado por cima de Robbie, mas isso são águas passadas que, muito provavelmente, irãoacabar em abraços, lágrimas e uma reunião dos Take That. Veremos.

Estamos a meio da viagem, altura para Robbie Williams vir à grade provocar alguns espasmos e trocar fist bumps. Há tempo para se cantar “New York, New York”, antes de uma das mais castiças apresentações de banda, em que cada um dos elementos começou um tema para se avaliar se eram ou não merecedores de subir a palco. O teste incluiu “Personal Jesus” e Just Can’t Get Enough (Depeche Mode), “9 to 5” e “Jolene” – homenagem dupla a Dolly Parton -, “We Will Rock You” (Queen), Y.M.C.A. (Village People) e “Hey Jude” (The Beatles).
Segue-se, no guião da tour, o momento de escolher uma lady da plateia e de lhe dedicar uma canção com o seu quê de flirt. A escolhida foi Isabel, que ficámos a saber pesar 52 quilos – a idade, essa, permanece um mistério.

Momento emocionante aconteceu quando relembrou o pai, Peter Williams – “o meu herói” -, antigo cantor e comediante de stand-up, agora com Parkinson. “Não sai de casa, fê-lo por duas vezes para ver os meus concertos. Consigo ver um homem sentado numa cadeira, orgulhoso do seu filho”. Emoção cortada por mais um momento britcom: “Quando ele disse que eu era o melhor do mundo tinha razão”, atira, abrindo espaço para mais um coro popular com “I Did It My Way”, canção eternizada pela voz de Sinatra.
“Feel” e “Angels” preenchem o encore, onde se acendem lanternas de telemóvel enquanto se procura alguém para abraçar. Afinal, os hinos só fazem sentido quando cantados em coro.

“É a nossa primeira vez em Lisboa. Há uma hora atrás estávamos a apanhar as malas no aeroporto”. Foi com este espírito de recém-aterradas que as Folk Bitch Trio se apresentaram em Lisboa, brindando-nos com uma folk de aspecto delicado que, por dentro, esconde quase sempre um tumulto interior. Tal como em “Hotel TV” ou “Moth Song”, dois dos temas que fizeram parte de um belíssimo e espremido alinhamento que gostaríamos de ver transposto para sala, num concerto em nome próprio. Por entre coros belíssimos e o dedilhar de cordas acústicas – ou de uma meiga electricidade -, não faltou a homenagem a Dolly Parton, a indisputável rainha da country: “Temos pensado muito nela. Vamos sentir a sua falta, era única”. A despedida fez-se ao som de “Analogue”, tema de um EP de 2023 – “uma canção muito antiga”, dizem, como se três anos fossem uma eternidade -, canção sobre a incessante busca, feita de falhas e espalhanços ao comprido, pelo amor: “So keep on dreaming of the ways you’ll get it wrong / Again, my love”. Já vamos sonhando com o regresso das australianas.

Anna von Hausswolff protagonizou um senhor concerto no Palco Sagres, onde cruzou a vertigem e o delírio jazzísticos dos Morphine com o espírito de uma trupe escocesa que, atingido o grau máximo de alcolémia, decidiu dar nova vida à pacata gaita de foles. Com uma extensa formação que incluía baixo, guitarra eléctrica, bateria e dois teclados, a cantora sueca serviu-nos uma pop-jazz com tanto de experimental como de sinfónico, alimentada por uma voz que tanto evoca o nervo da primeira vida de PJ Harvey como o alcance interplanetário da garganta de Siouxsie Sioux.

A indumentária da banda parece combinada, mas está longe de ser um uniforme de estampa única. Cada elemento apresenta, em geografias diferenciadas, um pormenor do que poderia ser um quadro, parte de uma exposição colectiva de motivos de azulejos à volta da dicotomia do azul e branco. Ao terceiro tema surge o assombro do órgão, ainda que sem os tubos que alimentam a discografia da sueca, com uma voz que nos conduz ao território lírico. De cap na cabeça, Hausswolff dança até cair de joelhos, como se pressentisse a chegada de um fim eminente. “Give me some headspace, give me a mirror / I need to lean into myself for a while / Pouring up red wine into a small glass”, canta em “The Iconoclast”, a balada jazz que Kate Bush não chegou a compor. Poesia em estado (im)puro, esta de Anna von Hausswolff.

Em “Mars Attacks”, a algo falhada homenagem de Tim Burton à ficção científica dos anos 1950, os alienígenas desembarcavam no planeta Terra com um enganoso “we come in peace”, para logo a seguir tratarem indiscriminadamente da saúde global. Não sabemos de que planeta terão vindo estes Angine de Poitrine, mas é certo que terão conseguido estabelecer, no MEO Kalorama, um contacto interespécies naquilo que foi um sunset transformado em festa do pijama.
Fazendo do triângulo o símbolo geométrico universal, a dupla canadense trouxe-nos o seu rock de fórmulas matemáticas, conduzido por um baterista robot, que se ia hidratando através de uma lata com um símbolo inflamável, e um guitarrista que carrega nos braços uma guitarra microtonal de braço duplo, um instrumento híbrido que junta a electricidade da guitarra eléctrica e o embalo do baixo – a que acrescentou um exímio uso dos pedais e loops para criar uma ambiência com muito de tribal.
Não faltou uma coreografia triangular, misturando ginástica localizada com mergulho olímpico, confirmando-se o primeiro contacto interespacial através de um “Lisboa” dito em alienês. O hype à volta desta dupla é bem merecido.

Melody’s Echo Chamber prometia pop francesa sofisticada com alguns desvios mas, mesmo com algumas melodias a serem alvo de focos controlados de incêndio, foi um pouco como experienciar música de elevador sofisticada num condomínio de 5 estrelas. Esperava-se um pouco mais desta câmara de eco.

Já com a noite instalada, Maro tentou transpor para imensidão de um festival a intimidade de uma sala de concertos, viajando entre temas do último longa-duração e outros mais antigos. Um desejo que acabou por não encontrar a sua lâmpada mágica, numa experiência química que só teve resultados positivos aos primeiros acordes de “I Wish”. Ainda assim, Maro disse que ia dormir “feeling so nice”, canção com que se despediu no MEO Kalorama.

O concerto de Judeline misturou uma sessão de bruxaria com um espectáculo de dança contemporânea, desde o momento em que surgiu carregada, qual andor pagão, por um quarteto de bailarinos, a que se juntou um ser maléfico, prateado e com um corte de cabelo duvidoso que, durante todo o concerto, a tentou puxar para o lado das trevas – acabou, claro, por se render aos encantos da bruxa andalusa, depois de lhe ter apontado uma seta ao coração.

“Não falo muito português mas… lua cheia”, diz a dado momento, olhando para a lua enquanto ia elogiando as artes da bruxaria. Em fundo, as projecções alternavam entre pombas brancas a esvoaçar e um farol protector, com todo o alimento musical a provir de um DJ que, pelo meio dos beats e segmentos pré-gravados, ainda se aventurou timidamente na guitarra eléctrica. Ainda houve tempo para “Tú Et Moi”, tema do EP “Verano Saudade” (2025), que acrescentou o funk brasileiro ao flamenco e à electrónica. Uma boa surpresa, sobretudo para quem gosta de dança moderna.

A pose e atitude continuam iguais, mesmo com mais uns anos em cada perna e uns fatos que, desde “Turn On The Bright Lights” ou “Antics”, provavelmente já subiram uns tamanhos. Homens de poucas falas e discretos nos movimentos, os Interpol regressaram a Portugal um dia após a saída de “This Mirror Weights a Ton”, o disco em que estiveram mais perto de uma reinvenção que provavelmente nunca desejaram – ainda assim, é um dos melhores exemplares da sua discografia. Teria resultado bem numa sala pequena, mas foi bom voltar a ouvir algumas canções que já são hinos.

Foi depois de um set que trouxe ao MEO Kalorama o melhor da house music que Grace Jones, qual rainha do carnaval de Veneza, surgiu em palco com uma estilosa máscara e um fato de bom corte. Aquilo que poderia ser, no mais intrépido dos sonhos, o prenúncio de uma sequela do Bondiano “A View To A Kill”, esbarra no sentido de humor de Jones, revelado após esta entrada aparatosa: “Podem dar-me um banco, por favor?”. Não se julgue, porém, que a diva jamaicana está, aos 78 anos, fora de forma. Mais à frente, numa trave metálica, arriscaria dois alongamentos que fizeram inveja a muito bom teen.

Os outfits iam-se sucedendo, desde um look Cleópatra – acompanhado por um “tenho de tirar isto daqui a pouco” -, um chapéu-véu com as cores da Jamaica, um corpete rematado com um chapéu com fita ou um outro chapéu, quase de coco, carregado de brilhantes cor-de-rosa. Mas foi sem dúvida o sentido de humor de Grace que deu cartas, com tiradas como “comi demais, definitivamente”, “quero descer estas escadas as cavalitas, ajudam-me?”, “esqueci-me das letras” ou “tenho de fazer chichi, mas parece que vou ter de aguentar”.

Musicalmente, Grace Jones proporcionou-nos uma viagem inesquecível, com paragens em estações como “Nightclubbing” – a icónica versão de Grace para o original de David Bowie e Iggy Pop -, “Private Life” – outra incrível versão, esta de um clássico dos The Pretenders -, o incendiário “Pull Up To The Bumper Baby” ou o lendário “Slave To The Rythm”. Um dos melhores concertos desta edição do MEO Kalorama.
Fotos:
Guilherme Cabral (Melody’s Echo Chamber, Grace Jones, Robbie Williams – assinaladas -, Folk Bitch Trio)
Gonçalo Silva (Judeline, Angine de Poitrine)
Rita Gazzo (Anna von Hausswolff, Robbie Williams – assinaladas e de destaque)
Duarte DCS (Interpol)
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Promotora: Last Tour Portugal











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