Após uma longa noite que envolveu uma discussão interior tão acesa e demorada quanto a do VAR do último Santa Clara – Sporting, eis 15 rodelas para celebrarmos 2025. Qualquer coisa como os melhores discos do ano.
15. “DÍA” | Ela Minus

Se andam à procura de um disco electrónico com tanto de inquietação como de agrafo, como se Fever Ray e Cristal Castles se sentassem à mesa para um debate com embalo presidencial, “DÍA” é bem capaz de ser a vossa bola de espelhos, um disco que olha para a mesa de mistura como um lugar de catarse.
14. “Bleeds” | Wednesday

Os Wednesday são uma das mais excitantes bandas da actualidade, e talvez tenham assinado neste “Bleeds” o seu melhor disco. “Elderberry Wine” e “The Way Love Goes” são dois monumentos de um disco que espatifa a vida e deita o amor às urtigas, restando ao humor negro fazer do erro uma bênção humana.
13. “The Clearing” | Wolf Alice

Os Wolf Alice já andam por cá há uns bons anos, mas foi com este “The Clearing” que deixaram de ser uma banda de nicho. E tudo graças a canções que têm a universalidade de um festival da Eurovisão – dito no melhor dos sentidos em que consigam pensar -, num disco onde as arestas deram lugar a superfícies (mais) polidas mas cheias de subtilezas e desejos de grandiosidade.
12. “Baby” | Dijon“

Dijon podia bem ser um neto perdido de Prince, tal não é forma como embrulha soul, pop e R&B num mesmo pacote, laço incluído. “Baby” é a sua obra de arte, um disco que parece ter atravessado décadas e, ainda assim, soar a um futuro que está a poucos anos-luz.
11. “Essex Honey” | Blood Orange

Não é o segredo mais bem guardado mas anda lá perto: Blood Orange, projecto a solo de Dev Hunes, uma alma criativa transformada numa orquestra pop de um homem só. “Essex Honey” é provavelmente o seu melhor disco até à data – taco a taco com “Freetown Sound” -, com melodias que ficam em suspenso e ritmos que convidam a visitar a pista de dança, tudo com o refinamento de quem se prepara para receber uma visita de estado.
10. “Euro-Country” | CMAT

Ciara Mary-Alice Thompson, conhecida no universo musical como CMAT, assinou em “Euro-Country” um dos grandes discos do ano, chegando-se à frente como uma das maiores – senão a maior – revelações do ano. O disco, uma sessão de stand country poetry onde a comédia caminha a par da reflexão, fala sobre identidade, fama, política ou o que é ser-se mulher, num raro rasgo de criatividade que leva a música country a um novo patamar. Um clássico pop para os tempos futuros.
9. Never Enough” | Turnstile

São bem capazes de ter sido a banda de 2025, graças a um disco que alargou as fronteiras do hardcore e os lançou numa tour que tem sido um festão. “Never Enough” pode ter incomodado os puristas e conservadores do género, mas trouxe para o hardcore elementos que transformam esta rodela numa celebração que, em muitos momentos, convida ao abanar de anca, sempre na boa companhia de uma secção de sopros que teria lugar em qualquer filarmónica. It`s never enough.
8. “People Watching” | Sam Fender

Sam Fender pode não ter obtido o canudo universitário, mas assinou em “People Watching” um verdadeiro tratado de Ciência Política, uma dissertação sobre a luta de classes que vai alimentando esta bola gigante a que chamamos mundo. Fender faz de cada canção um hino de protesto, com letras que se debruçam sobre a condição humana e todas as suas qualidades e contradições, feitas para se cantarem num estádio em jeito de comunhão. O Mercury foi bem merecido.
7. “Debí Tirar Más Fotos” | Bad Bunny

“Debí Tirar Más Fotos” está, para a música de Puerto Rico, um pouco como “El Madrileno” esteve para Espanha e o flamenco, pegando na melhor das tradições e juntando-lhe um gingar de anca contemporâneo. Com este novo disco, Bad Bunny pôs muito boa gente a curtir reggaeton, fazendo deste um baile – e um disco – inolvidable. Siga a festa.
6. “Lux” | Rosalía

Se jogasse futebol, Rosalía envergaria a camisola 10, número atribuído ao jogador capaz de fintas mágicas, passes milimétricos, aberturas de cortar o fôlego e mudanças de direcção propensas a dar cabo das ancas do marcador adversário. Depois do agitado “Motomami”, a artista espanhola saca de uma obra de arte gravada na boa companhia da London Symphony Orchestra, onde se fala sobre mortalidade, desejo, santidade e idolatria. Um disco de assinatura de uma artista visionária, qualquer coisa como O Evangelho segundo Rosalía.
5. “Forever Howlong” | Black Country New Road

Em 2023, num final de tarde para os lados do Meco, foi-nos apresentado o novo e belo país dos Black Country New Road. Uma banda que, após a saída inesperada de Isaac Wood (vocalista e co-fundador), teve de lutar pela sobrevivência. “Live at Bush Hall”, disco de 9 originais gravado ao vivo, foi lançado nesse mesmo ano, e 2025 viu chegar às lojas “Forever Howlong”, rodela que está entre a alegria de um musical da Disney e a vertigem de uma sinfonia de Beethoven.
4. “Choke Enough” | Oklou

É um dos mais delicados discos de 2025, habitado por uma pop saída de uma caixa de música trazida do país que Alice visitou em tempos. Assinado pela francesa Oklou, “Choke Enough” foi uma das grandes surpresas do ano, um disco pop de canções simples capazes de causar dependência. Intrigante e memorável, “Choke Enough” é barroco e nostálgico, uma daquelas rodelas para ouvir em loop como num daqueles sonhos dos quais não queremos acordar.
3. “It´s a Beautiful Place” | Water From Your Eyes

Não foi o disco do ano mas andou muito lá perto, não tivesse 2025 sido o ano de Cameron Winter e dos Geese. “It´s a Beautiful Place”, rodela assinada pelos Water From Your Eyes – dupla constituída por Rachel Brown e Nate Atmos -, tem tanto de elaborado como de caótico, um parque de diversões onde a montanha russa não passa sem a companhia do carrossel das chávenas e das girafas. É um daqueles raros discos em que a música alcança o estatuto de arte, podendo cada canção ser pendurada num museu para um olhar demorado.
2. “Heavy Metal” | Cameron Winter

Perguntaram a Cameron Winter, vocalista desse empreendimento indie rock chamado Geese, o que distinguia as suas canções em nome próprio das da banda. A resposta foi qualquer coisa como “se forem realmente tristes são minhas”, e a verdade é que os seus concertos, a acreditarmos no éter das redes, têm sido propícios ao gasto de muitos lenços de papel. “Heavy Metal” é o melhor disco de autor dos últimos anos, uma ode ao (des)amor assinada pela voz de uma nova geração. Love takes miles, é bem verdade, mas basta uma audição para nos apaixonarmos por esta rodela.
1. “Getting Killed” | Geese

Se fôssemos a votos, “Getting Killed” teria ganho com maioria absoluta, não sendo necessária uma segunda volta para se escolher a melhor rodela de 2025. Os Geese já tinham ameaçado com “3D Country”, mas “Getting Killed” entra directamente para o panteão das proezas musicais, conseguindo ser excitante, estranho, sedutor, caótico e muito criativo – tudo ao mesmo tempo. Cada canção é um elaborado enigma, um pouco como aqueles livros infantis que escondem mais camadas do que as vestidas por uma cebola roxa, descobrindo-se a cada audição novos motivos para as voltar a escutar vezes sem conta. As letras são um portento, e cada um dos músicos parece estar embrenhado numa demanda pessoal, decidido a compor a banda sonora definitiva para a Odisseia de Homero. There is only dance music in times of war. Bem verdade.











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