Já o dissemos – e escrevemos – anteriormente: o título que pesa sobre os seus ombros é de Lorde, mas a honraria mínima seria atribuir-lhe o ceptro e a coroa de rainha. A artista neozelandesa assinou, para nós, o melhor concerto desta edição do NOS Alive, por isso é para ela a carta de amor de dia 11 de Junho. Os postais, esses, foram escritos para Noiserv, Florence Road, Florence + The Machine, Alessi Rose e Buraka Som Sistema.

Foi há doze anos atrás que Lorde, então com 17 anos e a precisar de autorização parental para viajar, se estreou em Portugal, num concerto que teve lugar no Rock In Rio. Desde então muito mudou na vida da artista neozelandesa, de cuja discografia fazem parte quatro longas-duração imaculados, ainda que um deles seja (injustamente) visto como um patinho-feio.
Agora com 29 anos de idade, Lorde chegou ao NOS Alive com o mais recente “Virgin”. Um disco que, apesar de regressar ao som mais físico e electrónico do aparentemente imbatível “Melodrama”, está longe de ser um mero update – é, talvez,uma onde à transformação e à liberdade, onde há sempre uma certa atmosfera de catarse, revolução e transcendência, seja do corpo ou das próprias ideias em relação ao mundo.

Num concerto preparado para a atmosfera de um festival, Lorde começou por partilhar os seus batimentos cardíacos, mostrados no ecrã com o visual de quem descansa numa cama de hospital, enquanto tocava sintetizador numa estação com muita maquinaria, antes de se dirigir a uma fonte instalada numa lateral do palco para encher a sua garrafa.
O arranque fez-se com uma curtíssima mas trepidante versão de “Royals”, e o seguimento com “What Was That”. “Tudo bem?”, atira a neozelandesa, perguntando se estamos prontos para dançar, lançando-se numa muito performativa versão de “Broken Glass”, dando corpo a uma letra que aborda a obsessão pelo corpo e a imposição de padrões de beleza que levam à doença.

Em termos cénicos, o concerto foi de uma beleza e criatividade superlativas, sobretudo tendo em conta que decorreu com o sol ainda bem alto, com a interpretação de cada tema a pairar entre um teledisco e um acto de uma peça de teatro. A banda que acompanhou Lorde dividia-se entre a Estação, lugar de onde partiam os temas mais dançáveis, e o palco, onde circulavam com os seus instrumentos. Por outras vezes, como numa bem-vinda versão de “Girl, So Confusing” – a nova versão que juntou Charli xcx e Lorde -, juntavam-se descontraidamente em círculo, fumando um cigarro e conversando sobre assuntos mundanos. Ou, como em “Current Affairs”, com uma maçã a ser trincada e partilhada, numa alusão ao desejo e à intimidade.
Lorde falou de Portugal como “um dos meus locais preferidos do mundo”, mostrando uma alegria genuína por estar em Lisboa, “a cidade mais cool”, dizendo que “o resto da Europa tem ciúmes de vocês”. Pediu desculpa pela horrível prestação de Portugal no Mundial, antes de recordar quando, então com 11 anos, todos os seus colegas sabiam quando estava a chegar à escola, uma vez que a mãe conduzia com um disco a tocar bem alto. Esse disco era o de Florence ´The Machine: “Cresci com essa música. Abrir para ela é realmente muito especial”.

O momento mais especial e comovente veio depois, quando falou da importância de não nos esquecermos de onde viemos e de quem fomos: “Sinto que essa miúda de 11 anos está ao meu lado agora. Mantenham essa versão perto de vocês. Não é um caminho fácil. Caímos muitas vezes, às vezes juntos. É um caminho de reconstrução, é essa a viagem. Obrigado por me acompanharem nesta jornada”. Um momento de emoção e lágrimas, que conheceu o seu apogeu com “Liability”, tema maior da discografia de Lorde.

O grande final deu-se com “Ribs”, cantado – e dançado – numa plataforma junto às grades, perto dos fãs que, durante horas, aguardaram e esperaram por alguém que, como poucos, tem mostrado todos os dilemas que atravessam a adolescência, a entrada na vida adulta e a difícil jornada do que é ser-se mulher. Para nós, o melhor concerto do NOS Alive 2026.

Da Irlanda chegaram as Florence Road, quarteto formado por amigas de infância que escolheram o nome a partir da rua da escola que todas frequentaram, e onde uma professora comum sugeriu que tocassem juntas. Entre as vagas do shoegaze e a depressão crónica de uns Daughter, a banda mostra uma química digna de experiência de laboratório: uma voz com ganas e amplitude, uma baixista aparentemente tímida que se arrisca nos coros, uma baterista que marca o passo e uma guitarrista solo que sustenta todo o edifício com a força de um Hércules. A química com o público foi instantânea nesta estreia da banda em Portugal, que não fugiu a uma dança coreografada que mais parecia um movimento visto em piscinas olímpicas. Antes da derradeira “Break The Girl”, Lily Aron despede-se com um “Isto foi incrível, queremos voltar como headliners”, e não é difícil imaginá-los a percorrer, com estilo, a LAV Road. Uma das maiores surpresas e triunfos desta edição.

“Portugal, eu avisei-vos que vinha! Era um sonho tocar cá”. Palavra de Alessi Rose, que compareceu à catequese de vestido e sapatos de verniz cor-de-rosa, acrescentando à indumentária uma meia branca e uma fita preta ao pescoço ao estilo de uma gravata larga sem laço. Num cenário que imitava um vitral de uma igreja, dominado pelo cor-de-rosa, árvores retorcidas e dois corpos sem cabeça, Alessi teve de lidar com uma tenda com muitas clareiras, já que parte do seu público deveria estar à espera de ver a rainha neozelandesa da pop, mas se sentiu alguma decepção nunca o revelou, mostrando a energia visceral de quem lida com um estádio cheio. Ainda escutámos uma música sobre vingança, com potencial para a pista de dança, e vimos Alessi descer à grade, regressando ao palco com a bandeira portuguesa, mas esta estreia em Portugal merecia decididamente mais público.

Há quatro anos atrás, escrevemos estas linhas sobre o concerto de Florence + The Machine: “Entre a afronta adolescente do Capuchinho Vermelho, o poder incendiário da sacerdotisa Melisandre de Asshai e a graciosidade de uma bailarina do Teatro Bolshoi. Assim foi a passagem de Florence Welch pelo NOS Alive onde, na companhia de uma máquina indestrutível e com sangue no lugar de óleo a correr-lhe nas juntas, assinou um concerto que ficará para a história do festival”. Desta vez, a máquina mostrou estar menos oleada, e Florence pareceu, em alguns momentos, conduzir em piloto automático. O público, esse, esteve mais do que à altura, carregando o concerto em ombros e tranformando-o em mais um momento de catarse colectiva.

Quem diria que, por volta da meia-noite e tendo ao lado Titica a dar tudo no Clubbing, Noiserv nos brindaria com um senhor concerto? Acrescentando uma roupagem electrónica a alguns dos seus clássicos, Noiserv cantou sobre “coisas tristes do nosso mundo”, relembrou a sua adolescência a ouvir Pixies, falou sobre a importância dos fins ou de trilhar caminhos novos, elogiou a diferença como aquilo que nos torna mais humanos ou mostrou-se espantado com a aparente perda da empatia, enquanto que no ecrã assistíamos a uma carga policial sobre manifestantes à porta da casa da democracia. Um concerto belíssimo, que abre o apetite para Paredes de Coura.

“Não há festa como as festas de Lisboa”, ouve-se a dado momento durante o concerto dos Buraka Som Sistema. Regressados a palco após um hiato temporal de 20 anos, a banda de Branko, Riot, Conductor, Kalaf e Blaya transformou o Passeio Marítimo de Algés numa pista de dança comunitária e, mesmo aqueles corpos que julgavam ter perdido as pilhas, juntaram-se a esta celebração. Cada um dos refrões, exibidos nos ecrãs para um karaoke colectivo, eram cantados com as ancas em movimento, num concerto onde não faltaram convidados, uma homenagem a Sara Tavares, um vídeo de Ricardo Araújo Pereira a declamar “Kalemba (Wegue Wegue)” e um encerramento no qual trouxeram a palco as famílias – e, quem sabe, as sementes de um novo Buraka Som Sistema. Triunfal é o mínimo que se pode dizer sobre este regresso.
Fotos:
Arlindo Camacho (Lorde, Buraka Som Sistema)
Nuno Cruz (Florence Road)
Hugo Macedo (Noiserv)
Duarte Salgueiro (Alessi Rose)
Guilherme Cabral (Florence + The Machine)
–
Promotora: Everything is New











Sem Comentários