Publicado no início deste ano com o selo da Penguin, “Morte Aparente” (Penguin, 2026) é o livro de estreia de Carolina Fulcher, uma autora nascida em Lisboa e que conta, na árvore genealógica, com ramos brasileiros. A sua licenciatura em Economia e a especialização em Fashion Brand Management não parecem, de todo, atravessar a sua escrita, que deslumbra sobretudo por um certo ar de enigma e uma nota de originalidade, como se as palavras fossem pistas que o leitor terá de ir juntando para lhes poder retirar o sentido.
O livro é habitado por duas personagens que, de formas distintas, partilham o profundo abismo da solidão. De um lado, um jovem ocupa os seus dias a assistir, em directo e por stream, a funerais de desconhecidos, num voyeurismo que muitos considerariam mórbido. Do outro, uma mulher que tem “síndrome de coração partido” vive um relacionamento marcado pela manipulação e o abuso, revelando uma personalidade submissa onde domina o desejo de agradar.
Através destas duas personagens, numa escrita segura e cuidada onde se sente a vertigem poética, Carolina Fulcher tira uma radiografia sem relatório ao isolamento na contemporaneidade, trazendo para a primeira linha a vulnerabilidade humana e a forma como, dia a dia, vamos escolhendo distanciar-nos uns dos outros.
O final, tal como no Noliano “Memento”, pede ao leitor uma releitura, de modo a ver com outros olhos esta história sobre a partilha do irreparável e a busca de uma luz que confira um crédito extra para recuperar das perdas. Vamos ficar de olho em Carolina Fulcher.











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