• Mil Folhas
  • Música Com Cabeça
  • Cine ou Sopas
deusmelivro
Integrado Marginal, Bertrand, Bertrand Editora, Deus Me Livro, Crítica, Biografia de José Cardoso Pires, José Cardoso Pires, Bruno Vieira Amaral
Mil Folhas 3

“Integrado Marginal: Biografia de José Cardoso Pires” | Bruno Vieira Amaral

Por Pedro Miguel Silva · Em 29/06/2022

É mais um volume de uma série de biografias de personalidades ligadas à cultura portuguesa, lançada em Janeiro de 2019 pela Contraponto, colecção que apresentou já aos leitores figuras como Manuel António Pina, Manoel de Oliveira ou Agustina Bessa-Luís. Desta vez, coube a Bruno Vieira Amaral, construtor literário do Bairro Amélia, escrever “Integrado Marginal” (Contraponto, 2021), a biografia de um tipo que ficou para a história como noctívago, boémio e brigão – e que, no BI, assinava como José Cardoso Pires.

Correndo os riscos de escrever sobre uma figura polémica, ainda não suficientemente afastada do actual calendário e envolta em batalhas políticas e literárias que deixaram marca, Bruno Vieira Amaral fez um trabalho sensacional, construindo uma biografia – a sua – que é, para além de um marco histórico, um triunfo ficcional.

“A 13 de setembro de 1884, pelas onze horas da noite, nasceu na freguesia de São João do Peso, concelho de Vila de Rei, um indivíduo do sexo masculino a quem foi dado o nome de José António. Era o primogénito do casal. A mãe, tecedeira, de nome Maria Joana, era natural daquela aldeia. Ao pai, também ele José António, operário oriundo de Proença-a-Nova, conheciam-no na aldeia como «Zé dos Bois». Dizia-se que nascera numa manjedoura e tinha sido posto na roda, onde eram entregues as crianças enjeitadas. A São João do Peso chegou já adolescente para trabalhar na Casa João da Cova, a cuidar dos bois, razão da sua alcunha.”

Começa desta forma, recuando à origem parental, uma viagem que segue uma linha cronológica, e que nos começa por apresentar aquele que foi, na sua meninice, um menino da mamã – uma devota até mais não -, obrigado e usar joelheiras, cotoveleiras – uma espécie de babete – e escoltado, para vergonha sua, pela criada até à escola.

O trabalho de Bruno Vieira Amaral é de esmerado artífice, juntando, ao trabalho de biógrafo, um refrescante olhar histórico e um apurado sexto sentido para a crítica literária. Ao longo de quase seiscentas páginas, acompanhamos a implementação do Estado Novo e a forma como este foi implementado junto das crianças e das escolas (e de toda a sociedade); conhecemos a aversão de Cardoso Pires ao mundo da religião, ele que “era um menino do liceu que arranjou maneira de conviver com a choldra da Almirante Reis”; a relação com Luiz Pacheco, que foi do amor ao azedume; a formação literária à boleia de autores anglo-saxónicos; o nascimento da formação de um estilo com o livro “Semana Inglesa” que, “mais do a inspiração em obra alheia ou a inserção numa determinada corrente estética, (…) demonstrava a capacidade de Cardoso Pires transformar a matéria-prima recolhida na experiência pessoal em matéria literária autónoma, evitando quer as armadilhas do sentimentalismo neorrealista, quer o mero apontamento etnográfico ou sociológico”; a entrada para o PCP pelas mãos de Cesariny; o sonho perdido da geração de 45; o mestre Mário Dionísio, que lhe mostrou o caminho da sua escrita – e a quem Cardoso Pires fez uma sacanice; a confidente Maria Lamas; a censura de “Histórias de Amor” pela PIDE, o único livro que viu censurado; “as questões políticas e as politiquices do meio intelectual”; a parceria com a mulher Edite, revisora – e redactora – maior da sua obra; a propensão para o pugilismo e a cabeçada; a reescrita obsessiva dos livros; a relação nunca fácil com José Saramago, qualquer coisa como um Blur vs Oasis; o mundo turbulento dos prémios literários; o fim da ditadura; o baptismo do banco de réus em plena democracia; o trabalho na Câmara Municipal de Lisboa; ou, também, um atento olhar sobre cada um dos livros, relacionando-o com o homem e a época, convidando o leitor à (re)descoberta da obra de um dos maiores escritores da literatura portuguesa, que só não deixou para trás mais monumentos devido à busca da perfeição e a uma permanente insatisfação.

“…nunca cultivei qualquer espírito de grupo. Quando muito, talvez nunca tenha passado em toda a minha vida de um integrado marginal ou coisa que se pareça… Para aí, sim: integrado e marginal (…)”. As palavras são de Cardoso Pires, palavras que Bruno Vieira Amaral usa para dar título a esta biografia que se lê como um grande romance e que, recusando também ela o sentimentalismo neorrealista, termina ao estilo de um apontamento necrológico de uma amarelecida página de jornal: “No dia 26 de outubro, às duas horas e trinta minutos da madrugada, José Augusto Neves Cardoso Pires morreu no Hospital de Santa Maria. O país conhecia-o com autor de O Delfim, Balada da Praia dos Cães, De Profundis – Valsa Lenta. Resistira durante três meses e meio até não aguentar mais. Tinha 73 anos. O corpo foi cremado no dia seguinte e as cinzas depositadas no mausoléu dos escritores no Cemitério dos Prazeres”.

BertrandBertrand EditoraBiografia de José Cardoso PiresBruno Vieira AmaralCríticaDeus Me LivroIntegrado MarginalJosé Cardoso Pires

Pedro Miguel Silva

Pode Gostar de

  • Onde Esconder Uma Estrela, Oliver Jeffers, Deus Me Livro, Crítica, Orfeu Negro, Mil Folhas

    “Onde Esconder Uma Estrela” | Oliver Jeffers

  • Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva, Deus Me Livro, Crítica, D. Quixote, Dom Quixote, Mil Folhas

    “Feliz Ano Velho” | Marcelo Rubens Paiva

  • Duke, Deus Me Livro, Arte de Autor, Crítica, Duke 7, Este Mundo Não é o Meu, Hermann H., Yves H., Mil Folhas

    “Duke 7: Este Mundo Não é o Meu” | Hermann & Yves H.

3 Commentários

  • Ana comentou: 23/05/2023 at 13:00

    Adoro o trocadilho do deusmelivro e acho muito útil a sua existência. Na recensão ao Integrado Marginal, duas ressalvas: joelheiras e cotoveleiras são remendos (nos joelhos das calças e nos cotovelos dos casacos), à época sinais de grande pobreza. Não sendo o caso da família de JCP e sendo liceu Camões o liceu dos “betinhos” da época, usar remendos (lindos, de camurça… hoje fariam furor) estigmatizava o portador.
    Segundo alerta: a mulher de JCP batia-lhe os manuscritos à máquina (fora do seu horário de trabalho, como enfermeira). Podia alertar para algum lapso, mas nem revia nem redigia nada.
    Resta-me saudar a escolha deste livro para recensão no deusmelivro!

    Resposta
    • Vicente comentou: 27/06/2023 at 10:29

      De facto, toda a frase das “joelheiras e cotoveleiras” é escabrosa, quer na sintaxe, quer na pontuação, e só a partir do seu comentário percebi que se referia aos remendos na roupa. Fiquei a imaginar o pobre rapaz com joelheiras e cotoveleiras para se arrastar no chão no pagamento de promessas, uma vez que esta informação vem na sequência de uma alusão à devoção religiosa da mãe.

      Resposta
      • Deus Me Livro comentou: 05/07/2023 at 16:08

        Talvez o JL seja um território mais seguro para o leitor. Cumprimentos literários.

        Resposta

    Leave a Reply to Deus Me Livro Cancelar

    Siga-nos aqui

    Follow @Deus_Me_Livro
    Follow on Instagram

    Mil Folhas

    • Onde Esconder Uma Estrela, Oliver Jeffers, Deus Me Livro, Crítica, Orfeu Negro,

      “Onde Esconder Uma Estrela” | Oliver Jeffers

      05/03/2026
    • Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva, Deus Me Livro, Crítica, D. Quixote, Dom Quixote,

      “Feliz Ano Velho” | Marcelo Rubens Paiva

      05/03/2026
    • Duke, Deus Me Livro, Arte de Autor, Crítica, Duke 7, Este Mundo Não é o Meu, Hermann H., Yves H.,

      “Duke 7: Este Mundo Não é o Meu” | Hermann & Yves H.

      05/03/2026
    • Gannibal, A Seita, Deus Me Livro, Crítica, Gannibal 5, Masaaki Ninomiya,

      “Gannibal 5” | Masaaki Ninomiya

      04/03/2026
    • A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos, A Seita, Deus Me Livro, Crítica, André F. Morgado, Kachisou,

      “A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos” | André F. Morgado e Kachisou

      04/03/2026
    Acha o Deus Me Livro diferente? CLIQUE AQUI.

    Archives

    • March 2026
    • February 2026
    • January 2026
    • December 2025
    • November 2025
    • October 2025
    • September 2025
    • August 2025
    • July 2025
    • June 2025
    • May 2025
    • April 2025
    • March 2025
    • February 2025
    • January 2025
    • December 2024
    • November 2024
    • October 2024
    • September 2024
    • August 2024
    • July 2024
    • June 2024
    • May 2024
    • April 2024
    • March 2024
    • February 2024
    • January 2024
    • December 2023
    • November 2023
    • October 2023
    • September 2023
    • August 2023
    • July 2023
    • June 2023
    • May 2023
    • April 2023
    • March 2023
    • February 2023
    • January 2023
    • December 2022
    • November 2022
    • October 2022
    • September 2022
    • August 2022
    • July 2022
    • June 2022
    • May 2022
    • April 2022
    • March 2022
    • February 2022
    • January 2022
    • December 2021
    • November 2021
    • October 2021
    • September 2021
    • August 2021
    • July 2021
    • June 2021
    • May 2021
    • April 2021
    • March 2021
    • February 2021
    • January 2021
    • December 2020
    • November 2020
    • October 2020
    • September 2020
    • August 2020
    • July 2020
    • June 2020
    • May 2020
    • April 2020
    • March 2020
    • February 2020
    • January 2020
    • December 2019
    • November 2019
    • October 2019
    • September 2019
    • August 2019
    • July 2019
    • June 2019
    • May 2019
    • April 2019
    • March 2019
    • February 2019
    • January 2019
    • December 2018
    • November 2018
    • October 2018
    • September 2018
    • August 2018
    • July 2018
    • June 2018
    • May 2018
    • April 2018
    • March 2018
    • February 2018
    • January 2018
    • December 2017
    • November 2017
    • October 2017
    • September 2017
    • August 2017
    • July 2017
    • June 2017
    • May 2017
    • April 2017
    • March 2017
    • February 2017
    • January 2017
    • December 2016
    • November 2016
    • October 2016
    • September 2016
    • August 2016
    • July 2016
    • June 2016
    • May 2016
    • April 2016
    • March 2016
    • February 2016
    • January 2016
    • December 2015
    • November 2015
    • October 2015
    • September 2015
    • August 2015
    • July 2015
    • June 2015
    • May 2015
    • April 2015
    • March 2015
    • February 2015
    • January 2015
    • December 2014
    • November 2014
    • October 2014
    • September 2014
    • August 2014
    • July 2014
    • Contacto