Camila Sosa Villada é um verdadeiro furacão, como pode ser experienciado em “A Viagem Inútil” (Quetzal, 2026), um relato na primeira pessoa onde, com uma crueza desarmante e sem fazer quaisquer concessões ao pudor, a autora nos fala sobre as suas origens, num olhar sobre a família, um corpo – o seu – que viveu na clandestinidade ou o exercício da escrita, que parece ir ao encontro de um inatingível exercício de reparação. Preparámo-nos para a tempestade e colocámos algumas questões à autora argentina, acabando por sair revigorados do olho do furacão.

A sua obra transita frequentemente entre a auto-ficção e o ensaio biográfico. Como é traçado o limite entre o que pertence ao público e o que deve permanecer íntimo, isto num livro que reflecte, de forma tão directa, sobre a sua infância e a sua transição?
Não conheço limites. Menos ainda na escrita. De facto, creio que o meu grande problema, o meu grande assunto com a escrita, esta espécie de morte que cada livro me deixa, tem a ver com os limites, os que me foram impostos. Diques anímicos, pudores, vergonha, a enorme vergonha, a ideia de que algo merece ser guardado. E, claro, a gramática, a edição. Mas nada disso é importante, a escrita impõe-se a qualquer resquício de lucidez. Não me importa o que digo de mim própria nos livros, porque o que realmente importa é como o digo – ou, pelo menos, isto fica para mim, como quero dizê-lo. Talvez nunca diga o que quero dizer, como quero dizê-lo, mas o importante não é a anedota. Pessoal, inventada, ferida, corte, nada disso importa quando as palavras fazem o seu trabalho.
Fica muitas vezes a sensação de que é maior crítica de si própria. Afirma que escreve mal, que nunca se leria a si mesma e que se considera “uma total analfabeta do ofício”. Mais à frente, diz que “escrever não salva do facto”, o que de certa forma recusa a ideia da literatura como catarse. Razões mais do que suficientes para lhe perguntar: para quê escrever se tudo não parece passar de uma “viagem inútil”?
Não faço a menor ideia. Hahaha, para quê escrever, para ganhar dinheiro. Para que os meus pais tenham uma velhice boa.
Menciona, de forma recorrente, a influência do seu pai e das vozes da sua infância – “Estou sempre na minha roda infantil, aos círculos dentro de mim” – na sua relação com a linguagem. De que forma as fracturas da sua história familiar moldaram a musicalidade e a crueza da sua escrita?
Não apenas a família! A paisagem! Esses rios, essas montanhas como grandes muros, os cães. E depois a linguagem, tecendo situações belíssimas ou devastadoras. Este modo de escrever é de outros. Simplesmente estou a trazer a música das minhas tias, contando dores ou bisbilhotices à hora a que os seus maridos dormiam. As cartas que escrevi com inocência. Mas esta velha raposa que sou agora não é dona de nada. A escrita são os meus grandes outros, o Grande Outro como dizem na psicanálise. É uma resposta a essas presenças. A fractura que refere é a fenda por onde se cola a linguagem. Como poderia existir a escrita em alguém completo? Em alguém pleno e feliz?

A pobreza surge como algo visceral e marcante, uma sombra combatida pela revolta e a recusa do servilismo. Esta recusa da pobreza é algo que a moldou enquanto pessoa e escritora?
Nunca a repudiei. Creio firmemente que teríamos sido felizes sem ambição. Já vê quão pobres são as minhas respostas.
A identidade travesti não é apenas um tema, antes uma lente através da qual parece ler o mundo. O corpo — travesti, violentado, desejado, festivo — está sempre no centro do seu trabalho, o que faz com que alguns olhem para a sua obra como “literatura trans” ou “militante”. Sente-se confortável com este rótulo?
Absolutamente mal-entendida. Hahahahaha. É assim que me sinto. E sinto também uma certa subordinação que me impõem. Ou acaso o género não tem sido um modo de escrever o mundo? As mulheres, os homens? Por que não pode ser também o meu travestismo uma forma de escrevê-lo? se vai ser a partir do travestismo uma forma de escrevê-lo também? De rescindir os contratos? De romper com o aborrecimento dos livros que contam a mesma história, sempre através da mesma pequena fenda por onde olham os acontecimentos? Acaso não fizeram isto os escritores desde que existe a escrita? Impor o seu próprio olhar aos leitores? Não é a leitura uma maneira de se deixar dominar?
Há a ideia de que existe um antes e um depois de ter recorrido à psicanálise. A sua escrita mudou depois disso?
Hum… devo ser cuidadosa. Poderia dizer que sim, definitivamente, mas a síntese é o oposto da análise, como bem diz o meu analista. O que mudou foi o não me sentir mais estranha com as minhas palavras. Com os meus pensamentos. Já não estou desconfortável durante a escrita. Posso rir-me, posso sublimar, posso levar-me a sério, sem sentir que não faço parte disto.
“Primeiro a escrita, depois a tristeza”, lemos a certa altura. Este tornou-se, de alguma forma, um lema de vida?
Oxalá. Nunca pude ser garante da minha escrita.
Partilha a sua formação enquanto leitora ao longo do livro, fazendo referências a Truman Capote ou a Carson McCullers. Que autorxs a acompanharam no seu percurso?
Milhares, não poderia escrevê-las a todas, porque acima de tudo foram mulheres. E maricas. Agora mesmo estou acompanhada por Anne Carson. Vou comprando tudo o que encontro dela. Sou uma leitora ambiciosa.

Nota-se uma certa aversão ao meio literário, onde se sente como uma “travesti solitária”. Os corredores da literatura são um lugar do qual deveremos ficar longe?
Não sei… com certeza não sei. Entendo que tudo aquilo a que os outros querem pertencer, de uma forma geral, me corre mal. Como um vestido mal cortado. Sinto-me bem levando-lhes algo que os contraria. Faço o meu trabalho, de modo que nunca estou completamente afastada. Para estar à margem, deveria deixar de publicar.
As mulheres são, na escrita, bem mais eróticas do que os homens. É caso para dizer que os escritores são maus amantes?
Nunca me envolvi com um escritor que o fizesse bem. E envolvi-me com muitos, para minha desgraça.
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Fotos cedidas pela Quetzal











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