Gregorio Marañon, intelectual espanhol da chamada Geração de 1914, assume uma “antipatia profunda pela novela picaresca” em geral. Não devido à variável qualidade literária, mas por considerar o género imoral, graças aos enredos que conduzem ao triunfo de protagonistas velhacos e engenhosos, cujas malfeitorias são apresentadas como engraçadas, de uma forma que as atenua e até as justifica. Além disso, considera que o destaque das “facetas lamentáveis da vida”, em detrimento de temas mais gloriosos – “como se não houvesse mais que seres deformados física ou moralmente nas terras de Espanha” –, transmite uma má impressão do país, e chega ao ponto de acusar o género de exercer uma influência pessimista na alma espanhola, na medida em que o injusto triunfo do biltre faz a virtude parecer vã. Perante uma visão tão negativa da literatura picaresca, como se explica a escolha deste texto para prefaciar um dos seus sucessos? Talvez porque a caracterização, no fundo, é certeira – e porque Gregorio Marañon, apesar do desagrado, declara que “A Vida de Lazarillo de Tormes e Suas Fortunas e Adversidades” (Quetzal, 2026) é “uma das suas obras magistrais”.
Aqui, o biltre, que nos narra a sua vida em discurso direto, tem uma infância pouco auspiciosa, mas mostra desde cedo capacidade para tecer considerações pertinentes: “Quantos não haverá no mundo que fogem de outros por não se verem a si mesmos!”, pensa ele. Órfão de pai, Lazarillo é entregue pela mãe ao serviço de um cego que se revela avarento e mesquinho, embora conheça mil formas de arranjar dinheiro. Bom aluno, Lazarillo desenvolverá “subtileza e boas manhas” para prover às suas próprias necessidades, retribuindo os dissabores que o amo lhe causa com “burlas endiabradas”.
A mudança de amo nem sempre será para melhor. Deambulando por Espanha, servirá sucessivamente um clérigo, um escudeiro, um vendedor de bulas e mais uns poucos senhores, cada um dando azo a críticas mordazes, num discurso enganadoramente terra-a-terra, no qual encontramos várias camadas, que nos levam a lamentar ignorarmos o nome do autor. Pela sátira em relação ao clero e a certos costumes, não admira que o texto, originariamente publicado em 1554, tenha sido incluído, cinco anos depois, no índice de livros proibidos da Inquisição espanhola. Apesar da censura, continuou a circular de forma truncada, foi ironicamente preservado na biblioteca imperial de Filipe II de Espanha – Filipe I de Portugal – e acabou convertido num clássico, agora acessível numa edição que usa como referência a edição da Cátedra, apresentando entre parênteses rectos os acrescentos de uma outra edição. Podemos assim divertir-nos com uma obra que reflecte com humor aspectos menos recomendáveis da sociedade – os quais, apesar de descritos no século XVI, são facilmente extrapoláveis para os nossos dias, onde também não falta matéria-prima picaresca.











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