Quando editaram “Romance”, corria o ano de 2024, os Fontaines D.C. foram encostados à parede pelos fãs devotos da Santa Trindade – Dogrel (2019), A Hero’s Death (2020) e Skinty Fia (2022) -, acusando a banda de se ter afastado da sua estética, sonoridade e conceptualismo, numa traição às raízes post-punk Dublianas. Aos outros, fãs de longa data que mantiveram aceso o romance com a banda irlandesa, sem nunca lhes ter passado pela cabeça a ideia de divórcio – nem sequer tentar a terapia de casal -, juntou-se toda uma nova geração para lhes dar a mão, olhando a centímetros do precipício para um futuro habitado pela ansiedade, o caos urbano e uma busca incessante pela beleza, o afecto e, com alguma sorte, o amor, caminhando enquanto as paredes do mundo iam lentamente erodindo.

“Dopamine Chamber”, o quinto álbum de originais que a banda lançou a 16 de Outubro, é um passo de gigante na sua obra, um disco sobre a anestesia emocional moderna provocada pelo mergulho digital, feito da ausência do outro e de um scroll infinito a grande profundidade, que faz do medo existencial o maior dos temores e que é, muitas vezes, vivido em solidão.
Desta vez, a mudança sonora foi ainda mais vincada, entregando o protagonismo aos sintetizadores e aos arranjos orquestrais, acalmando a fúria das guitarras para tecer uma pop feita de sombras e alimentada por fantasmas. De certa forma, pode ser encontrado algum paralelismo com a evolução sonora promovida pelos New Order, uma das bandas que mais cantou sobre a vulnerabilidade humana, a solidão e a complexidade dos relacionamentos – mas essa conversa ou debate ficará para depois.

Há, porém, algo que nunca abandonou os Fontaines D.C. ao longo destes cinco álbuns: canções que são verdadeiros poemas, carregados de enigmas, verve, rebeldia, inquietação e questionamento, que mereciam chegar à impressão e à estante da biblioteca de cada leitor de poesia e de boa literatura. No concerto da MEO Arena (21 Outubro 2026), foi de Poesia – assim mesmo, com P grande – que se tratou, numa actuação que provou que, com este disco e neste preciso momento do tempo, os Fontaines D.C. são a melhor e mais relevante banda do planeta, escrevendo e cantando como poucas sobre as complexidades do mundo contemporâneo.
Foi, aliás, depois de escutarmos o poema “For What Died the Sons of Róisin”, escrito por Luke Kelly (vocalista dos The Dubliners) – uma reflexão muito crítica e mergulhada em fel sobre os caminhos percorridos pela Irlanda até aos dias de hoje -, que Grian Chatten, Carlos O’Connell, Conor Curley, Conor Deegan e Tom Coll – e também Chilli Jesson, que acompanha a banda nesta tour – subiram a palco.

Apesar de se tratar da apresentação de “Dopamine Chamber”, o recital abre com “Boys in the Better Land”, com um efusivo Grian Chatten a abrir e a levantar os braços num convite à celebração, terminando a bater com a pandeireta contra o peito como quem vai controlando os batimentos cardíacos, não vá a arritmia fazer das suas. Antes do mergulho na câmara de dopamina há ainda “Here’s The Thing”, que mete um certo coro Parcelsiano, e “Nabokov”, com Conor Deegan, perdido nas cordas do baixo, de olhos fechados numa dança solitária.
Nos ecrãs, durante todo o concerto, eram mostrados grandes planos dos elementos da banda – o realizador circulava mais ou menos discretamente entre os músicos -, sendo claro que a química entre a banda e a entrega aos instrumentos é, neste momento, de quem anda a estudar alimentado a redbull e comprimidos para poder sacar o 20 nos exames.
“Marianne” surge ao quarto tema sob o foco de luzes cor-de-rosa, evocação de uma triste dança de varão antes de um truque de ilusionismo que a faz desaparecer. Grian Chatten parece mais descontraído, entusiasta e ligado ao público do que nos concertos anteriores em Portugal – Campo Pequeno ou Primavera Sound Porto -, e são muitos os momentos em que caminha na catwalk, seja para pedir ou partilhar do entusiasmo, passear-se com a bandeira da Palestina – ou o keffiyeh enrolado ao pescoço – ou sentar-se para nos recitar os poemas mais calmos. A sua voz está, decididamente, mais pausada e melodiosa, e são muitas as vezes em que inventa novas melodias para letras que, noutros tempos, eram cuspidas de outra forma, como quem aprimorou a arte da declamação para que as suas palavras sejam compreendidas.
Todos os momentos são de celebração e espanto, como em “You Miss Me”, numa versão com uma certa aura Joy Divisioniana que a certa altura decide convidar os Beatles para a festa – e que nos mostra Carlos O’Connell, perdido nos teclados, como quem no liceu brinca com os tubos de ensaio numa aula de química, em delírio com os primeiros sinais de fumo.
“In the Modern World” é, não só o hino de uma geração, mas de um mundo todo ele às aranhas, e o que dizer de “Happy For You”, poema de desamor que nos coloca numa jangada solitária, enquanto à nossa volta o fogovivo serve para apontar o caminho?

Em “Big Shot”, Carlos e companhia fazem o coro com a mesma paixão com que uma criança se diverte a andar de baloiço e, logo de seguida, surge quem sabe o melhor tema de “Dopamine Chamber” – “Memesis” -, aquela altura em que os Fontaines D.C. acharam que, também eles, podiam entrar na pista de dança.
“Bug” é Fontaines em estado de graça e, em “Favourite”, a conquista é mais do que absoluta, com os braços a erguerem-se ao céu, num concerto onde a qualidade do som foi melhorando de tema para tema.

A despedida do primeiro acto faz-se com “Where is Gone?”, momento de absoluta comunhão que tem um certo embalo James Bondiano, e que termina com Chatten a beijar a bandeira da Palestina, que tinha carregado e feito esvoaçar durante a actuação.
A banda regressa a palco quando, numa espera que pareceu durar uma eternidade, as lanternas dos telemóveis se acenderam como pirilampos aprendendo a dançar. Seguiram-se “Japan”, a música que todos queriam ter dançado, no baile de finalistas, com o rapaz ou a rapariga de que gostavam mas nunca tiveram a coragem de convidar; “I Love You”, com um tímido e terno mosh pit que mais parece uma sessão de speed dating mais demorada; a incrível “Starbuster” e, na despedida, “Six Shot Morning”, o negro tema que abre “Dopamine Chamber”, o prefácio de alguém que, tal como no romance de Jack Kerouac, vai caminhando pela estrada fora, aqui relatando a estranheza de se viver cercado de ecrãs.

Tal como Neil Perry, Todd Anderson, Charlie Dalton, Knox Overstreet e Steven Meeks – e todos os que, antes deles, tiveram a coragem de enfrentar a autoridade e de se descobrirem a si próprios (ou de o tentar pelo menos) -, entremos na caverna de dopamina dos Fontaines D.C. e, antes de celebrarmos a poesia iluminada de Grian Chatten, recitemos as palavras do mestre Thoreau: “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido*”.
(*Henry David Thoreau, in Walden ou a Vida nos Bosques; edição Antígona (1999), com tradução de Astrid Cabral)
Fotos: Tiago Cortez/ Everything is New
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Promotora: Everything is New











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