“Tem uma capa punk mas é um livro muito poético, não que estes dois universos não possam coexistir. Um livro com muitas camadas, que nos apresenta Mitra como um local e um adjectivo”. Foi desta forma que Diana Garrido, editora de ficção nacional e banda desenhada na Penguin Random House, apresentou “Carcaça”, romance com a autoria de Senhor Vulcão que acaba de chegar às livrarias. Uma sessão que decorreu na Livraria do Mercado, em Óbidos, no âmbito do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos.
Alter ego artístico de Bruno Pereira, músico, escritor e criador português nascido em Lisboa em 1976, Senhor Vulcão tem feito um percurso muito discreto e dado à independência, onde impera o espírito autodidacta – ou, como diriam noutra língua, o do it yourself. Um percurso multidisciplinar, que inclui uma música que já foi descrita como de intervenção ou na onda de um folk/rap – foi baterista e fundador dos Atomic Bees, integrou a banda Fala Povo Fala e conta com vários álbuns editados em nome de Senhor Vulcão -, obras literárias onde a poesia serve, como em “As Raposas estão a arder” (Urutau, 2026), para falar – e cantar – sobre a dor e o impacto dos incêndios florestais, ou o exercer da sua costela e formação de designer, quer como director criativo da Labdesign ou curador cultural em aventuras como a Poster Mostra, projecto cultural português de arte pública e palavra que tem como intuito transformar as ruas e paredes de Lisboa numa galeria de arte gratuita e de acesso livre a céu aberto.
O Albergue da Mitra, em Marvila (Lisboa), foi um centro de internamento e assistência social criado em 1933 pelo Estado Novo, destinando a recolher e esconder mendigos, sem-abrigo, doentes mentais, pessoas com deficiência e outros grupos considerados “indesejáveis” pela ditadura. O local foi reconvertido no pólo Lisboa Social Mitra, gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e pode ser visitado pelo público que, até 22 de Dezembro, poderá igualmente visitar a exposição “Portões que Falam – A Mitra de Lisboa”, um percurso que nos conta a história sombria do antigo albergue, reunindo objectos da época, fotografias, testemunhos de antigos utentes e documentos oficiais que revelam a realidade do internamento durante a ditadura.

“Sou da classe media mas vivi na Buraca. Fiquei desde muito novo com uma ligação às pessoas ostracizadas. Algo que me marcou para sempre, tanto na minha vida como na minha arte. As personagens de «Carcaça» construíram-se a partir de memórias de gente com quem convivi na infância”, conta-nos Senhor Vulcão, respondendo à observação de Diana Garrido de todas as personagens de “Carcaça” parecerem ter recebido o papel principal da trama. “Houve esse intuito. Todos fazemos parte de um todo, é o conjunto que faz a união. O Zé Bojarda é o fio condutor, mas cada um tem o seu universo pessoal. Esse cruzar de camadas, da destruição dos estratos, foi uma ideia presente, representando também valores como a união,a partilha e a importância da diferença”.
Falou-se também da gentrificação, que faz com que um menu de arroz de grelos e rissóis – servido no restaurante improvisado do prédio de Zé Bojarda – possa parecer uma memória longínqua, ou da ideia de uma verdadeira comunidade, um exercício que pode, segundo Diana Garrido, carregar uma certa nostalgia. “Este lugares existem mas são cada vez menos. Considero-os como uma segunda casa, onde entramos e somos reconhecidos. Com a gentrificação tudo isso está a desaparecer, mas não vale a pena deprimir sobre isso. Temos de ser nós próprios a criar esses espaços de comunidade, seja com os nossos amigos ou, principalmente, com quem ainda não conhecemos. A nostalgia é grande, mas vejo-a como um sorriso. Transformei-a em algo de bom para mim. A nostalgia nunca deve ser negativo, temos de lhe extrair as coisas boas”, diz-nos, recordando a chanfana da avó, prato que nunca voltou a saborear da mesma forma mas que não o impede de prosseguir essa demanda, como se cada tentativa falhada fosse, ao mesmo tempo, a possibilidade de resgatar uma memória feliz.

A passagem da poesia para a prosa foi, para o autor, transformadora. “Passei a viver muito mais vidas. Escrever um romance é diferente, o lastro e o mergulho são muito maiores. Escrevi este romance a andar e a correr, e descobri que é verdade o que alguns escritores dizem: as personagens escrevem-se a si próprias”.
Um movimento que acabou por abrir uma Caixa de Pandora: “Estou a escrever mais três livros, um deles com a personagem Olívia deste romance. Ando obcecado com a escrita, às vezes tenho de para para meditar. Todos eles começam na palavra, está sempre tudo ligada a ela. E à música, nos próximos romances haverá também muita musica. Agora vou cantar, cuidado. Se quiserem sair é agora. Já toquei para zero pessoas, por isso já estou vacinado”, brinca, fechando com um mini-concerto onde teve até direito a coro. Depois da música e da poesia, chegou o momento de descobrimos a prosa do Senhor Vulcão.
Fotos: Luísa Velez/ Deus Me Livro











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