“Apanhai-as frescas até ao fim do ano e saboreai-as detidamente até ao fim dos tempos”. É este o bom conselho que chega vindo da mais refractária das editoras, que entra na rentrée com uma visita guiada a “O Museu dos Esforços Inúteis”, conduzida com esmero por Cristina Peri Rossi. Conheça os títulos que vão chegar às livrarias nos próximos meses com o selo da Antígona.

O MUSEU DOS ESFORÇOS INÚTEIS
Cristina Peri Rossi | Trad. Guilherme Pires
Contos | 184 pp. | Já nas livrarias
Segundo os arquivos de um museu peculiar, ao longo dos tempos, crianças quiseram voar, pessoas viajaram em busca de lugares inexistentes, um homem tentou durante dez anos ensinar o cão a falar. É esta galeria de desfechos inglórios, e não de grandezas passadas, que dá o mote à trintena de contos invulgares reunidos neste livro.
De ala em ala, sem saída fácil pela loja de souvenirs, ergue-se, segundo a crítica, com ironia e humor corrosivo, o «fracasso como acto de resistência poética», tão belo como o do atleta que se detém a um passo da meta para contemplar o céu («O corredor tropeça») ou o caos provocado por quem, numa escada lotada do metro, de repente se esquece se pretende subir ou descer («A fenda»).

ANTOLOGIA DE POESIA PORTUGUESA ERÓTICA E SATÍRICA
Selecção, prefácio e notas Natália Correia
Reedição | 492 pp. | Capa dupla à escolha do freguês | Já nas livrarias
Publicada em 1965, a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica é um repositório da melhor tradição licenciosa na literatura nacional, destrinçando nesta uma luminosa e desbragada alegria de viver que faz murchar a posteridade.
Aliando à mais jocosa crítica de costumes a vasta erudição de Natália Correia, e estendendo-se dos cancioneiros medievais a poemas dos anos 60, reúne nomes célebres e inesperados, como Camilo, Antero ou Pessoa, bem como poetas ignotos, surpreendentes pela ousadia e fértil arte literária que revelam. A primeira edição deste livro não escapou no Estado Novo à censura, tendo sido apreendida pela PIDE, nem a um processo judicial tristemente célebre que envolveu a própria Natália Correia e vários outros intervenientes, um momento crucial na luta pela liberdade de criar e editar em ditadura.

O MEIO É A MASSAGEM
Marshal McLuhan e Quentin Fiore
Trad. Diana V. Almeida
Ensaio | 160 pp. | 21 Setembro
“O Meio é a Massagem” (1967), de Marshall McLuhan, pai dos media studies e pensador visionário, é um clássico da teoria da comunicação e aborda a forma como a tecnologia molda os esquemas cognitivos e gera novos modelos de interacção social e política. Combinando palavra e imagem – experiências gráficas, citações e colagens –, é uma síntese estimulante das ideias de Marshall McLuhan, que assumiu o erro tipográfico no título idealizado – «o meio é a mensagem» – por realçar a capacidade de manipulação sensorial dos media.

MARCAS DE BATOM — UMA HISTÓRIA SECRETA DO SÉCULO XX
Greil Marcus | Trad. Helder Moura Pereira
Ensaio | 484 pp. | 5 Outubro
“Marcas de Batom” (1989) é uma viagem alucinante e imparável que nos leva dos heréticos medievais aos dadaístas, dos situacionistas aos movimentos underground dos anos 70 e 80, em busca da rebeldia e do inconformismo que em vários tempos e lugares desafiaram o statu quo. Uma aventura que começou quando, ao ouvir pela primeira vez «Anarchy in the UK», dos Sex Pistols, Greil Marcus sentiu a urgência de descobrir de onde vinha a força e o NÃO rotundo do punk gritado ao mundo. Porque, ao longo da História, sempre se fizeram ouvir vozes subversivas e marginais, na música, na arte e nas ruas, que formaram uma corrente demasiado vital e coerente para ser travada.

DANÇAR NAS RUAS – UMA HISTÓRIA DA ALEGRIA COLECTIVA
Barbara Ehrenreich | Trad. José Miguel Silva
Ensaio | 328 pp. | 19 Outubro
Desde que o mundo é mundo, a humanidade dançou em festividades e momentos de êxtase colectivo: da Roma Antiga, banquetes e bailes na Europa Medieval a festejos de Carnaval e raves. “Dançar nas Ruas” (2006) explora a história dos ritos de libertação pela música, pela dança e pelo transe, a persistência destas demonstrações de alegria comunal que inspiraram ideias de revolução e irmandade, bem como as tentativas de repressão deste júbilo colectivo, operadas ao longo dos tempos por hierarquias e elites ou convertidas em lazer passivo.

O INVENCÍVEL VERÃO DE LILIANA
Cristina Rivera Garza
Trad. Margarida Amado Acosta
Romance | Novembro
Em Julho de 1990, uma jovem é assassinada no México pelo ex-namorado em fuga, nunca condenado. Trinta anos depois, Cristina Rivera Garza regressa ao país para reabrir o caso arquivado de Liliana, a sua irmã mais nova, e reúne a coragem para, a partir dos textos, cartas e notas deixadas por ela, um «arquivo meticuloso» em caixas de cartão, compreender um crime e, sobretudo, reconstruir uma vida. “O Invencível Verão de Liliana” (2021) é simultaneamente um livro íntimo de memórias com uma imensa força literária, uma obra de luto e revolta, uma denúncia do feminicídio, da misoginia e da impunidade.

CISNES E OUTROS CONTOS
Janet Frame | Selecção, tradução e nota prévia de Paulo Faria
Contos | Novembro
Colectânea de fôlego que reúne os melhores contos de Janet Frame, retirados de quatro livros publicados em vida da autora – “The Lagoon and Other Stories” (1951), “Snowman, Snowman” (1963), “The Reservoir” (1966) e “You Are Now Entering the Human Heart” (1983) –, e que abarca toda a sua carreira literária. Da infância na Nova Zelândia, e da visão do mundo das crianças, a fábulas e narrativas alegóricas, à exploração de temas como a loucura e a identidade, Janet Frame domina como ninguém a respiração do conto enquanto género nos textos magistrais aqui coligidos.











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