Chegar cedo a um festival vale a pena quando se vê um concerto como o dos Carolina Durante. Num cenário que fazia lembrar o de um dia passado num escritório, um ensemble de músicos encheu o público de energia. Por vezes recordando a atmosfera sonora da série Violetta, o pop rock da banda dominou a colina, cheia de acérrimos fãs dos espanhóis que entoavam as letras da banda com toda a garra que tinham.

Todas as músicas pareciam saídas de um filme coming of age, inspirando uma certa rebeldia e nostalgia, acentuada em particular por Diego Ibáñez, que protagonizou um momento em que cantou para um telefone à moda antiga. Deixaram o público entusiasmado para o terceiro dia do festival.

Um homem que não precisa de apresentações – e que há muito conquistou o merecido direito de se sentar de vez em quando para descansar um pouco as pernas. Sérgio Godinho entrou em palco no Vodafone Paredes de Coura como um rei, acolhido desde logo pelos estrondosos aplausos dos festivaleiros. Numa actuação recheada de convidados, incluindo Samuel Úria, Manuela Azevedo, Ana Lua Caiano, Milhanas, A Garota Não ou Capicua, celebrou-se acima de tudo a liberdade e a democracia. O artista leu poemas de Alexandre O’Neill, fez cair uma lagriminha com “O Primeiro Dia” e provocou o contágio com a sua energia de protesto – após ter saído de palco, o público ficou a entoar “Fascismo nunca mais, 25 de Abril sempre”.

Benjamin Clementine revelou, a certa altura, que o seu concerto em Coura de há alguns anos tinha sido o seu favorito, e que retornava a essa memória várias vezes. O compositor tinha certamente expectativas muito altas para esta actuação, que acabaram por ser cumpridas – talvez até superadas. O cenário foi totalmente construído em tons claros, em contraste com Benjamin, vestido totalmente de preto, e os músicos assentes em pedestais, que os transformavam em todas-poderosas figuras de um videojogo.

Foi, em parte, uma experiência cinematográfica, acompanhada da passagem de excertos de filmes a preto e branco ou de vídeos do próprio Benjamin. Quando chegou o momento da participação do público, que Clementine tanto disse apreciar, o britânico venceu a timidez alheia e desempenhou o papel de professor, levando a que um belo coro nascesse para entoar “I dream, I smile/ I walk, I cry”. Mais tarde, o coro foi novamente chamado para cantar – com tudo o que tinha – a canção “Condolence”, que resultou no momento mais bonito do dia. E, como o mestre que é, ainda teve tempo para dividir a multidão em partes e pô-la a harmonizar. No entanto, o momento mais marcante deu-se já depois do concerto, quando Benjamin conheceu o seu duplo: uma criança na grade, que recebeu o mesmo nome devido ao artista, levando a um encontro de aquecer o coração.

Os Bloc Party já foram uma banda que dominou o indie rock, e isso ficou visível quando tocaram o clássico “Banquet”, mas o resto da sua discografia não chega nem perto da glória de “Silent Alarm”, o que levou a momentos mais entediantes durante a sua atuação. Ainda tocaram os singles do seu novo álbum prestes a estrear, “Anatomy of a Brief Romance”, que promete conseguir restaurar algum do seu charme no espectro do indie rock.

A actuação de M.I.A. foi semelhante àquelas performances familiares que se faziam com as irmãs e primas de 5 anos, que não possuíam qualquer ideia de coordenação. M.I.A, aliás, parecia não ter planeado muito bem o concerto em Coura – ou no Porto, que era onde ela achava estar. Os cenários foram sempre demasiado, tendo em conta o vazio do palco deixado pela sua dança e um evidente falta de presença, a que se juntou uma voz sem carisma e momentos de playback. O segundo acto foi ainda mais bizarro, quando convidou um coro para o que parecia ser uma missa de domingo de manhã – ao menos, essa parte pareceu ter alguma intenção, que faltou a todo o concerto. Para alguém que antes do concerto pôs nos ecrãs o aviso “A PRÓXIMA ARTISTA É CONSIDERADA EXTREMAMENTE OFENSIVA! VEJA POR SUA CONTA E RISCO!”, a missão de conquistar o público foi claramente falhada. “Paper Planes” foi ainda trazido para a despedida, mas nem este êxito conseguiu salvar o desastre total que foi o concerto de encerramento do palco principal do terceiro dia em Coura.
Fotos: Hugo Lima











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