Há livros cuja beleza reside menos naquilo que contam do que na forma como iluminam o indizível. “Escrito Com Sangue Na Água”, da italiana Maria Grazia Calandrone (Alfaguara, 2026) é um desses casos. É impossível não nos deixarmos tocar pela procura obstinada de uma filha, que tenta reconstruir o rosto da mãe através dos vestígios que esta deixou – “Escrevo este livro para que a minha mãe se torne real”. Um dos momentos mais comoventes acontece quando, finalmente, tem acesso aos seus pertences e procura, nos objectos mais íntimos, a forma das mãos que nunca conheceu verdadeiramente, como se pudesse reencontrar, no desenho dos dedos, o afecto que a vida lhe negara.
Maria Grazia Calandrone escreve na primeira pessoa, entrelaçando memórias pessoais, investigação documental e o contexto social e político da Itália do pós-guerra. A pesquisa que sustenta este livro, publicado em Itália em 2022, começou ainda na década de 1990, e representa o culminar de uma longa procura: a tentativa de devolver uma existência à mulher que lhe deu a vida. Através dele, tomamos contacto com o que a própria autora designa como “a arquitectura de um abandono”.
Lúcia, a mãe da narradora, surge desde as primeiras páginas envolta em mistério. Sabe-se que protagonizou um gesto extremo, condenado por todos, mas a verdade permanece oculta sob décadas de silêncio, preconceito e especulação. A história de Lúcia é, também, a história de inúmeras mulheres numa Itália profundamente conservadora, onde o peso da família, da moral e das convenções limitava severamente a liberdade feminina. Desde cedo, é tratada como instrumento dos interesses familiares, destinada a um casamento que nunca desejou nem chegou verdadeiramente a consumar. Sobre ela exerce-se uma violência que é, simultaneamente, íntima e estrutural, aceite como parte da ordem das coisas.
Mas Lúcia ousa romper com esse destino. Quando reencontra o que se assemelha ao amor, reencontra também a possibilidade de existir por vontade própria. Com Giuseppe, um homem muito mais velho do que ela e sem qualquer garantia de futuro, vive a intensidade dos amantes que acreditam ser possível começar de novo. Contudo, acabaram esmagados pelo peso da censura social, da hostilidade colectiva e de uma estrutura familiar incapaz de aceitar qualquer desvio ao modelo considerado legítimo. A tragédia que os envolve não pode ser compreendida apenas como um drama privado; é, também, o retrato de uma época em que determinadas formas de amar e de viver eram condenadas à invisibilidade.
É precisamente aí que reside uma das maiores forças deste livro. Ao escrever, Maria Grazia Calandrone não procura apenas compreender os pais, mas restituir-lhes humanidade, ao recuperar-lhes a voz e resgatando-os do julgamento moral. A escrita transforma-se, assim, num verdadeiro acto de reparação da memória e de redenção, onde o abandono deixa de ser encarado apenas como ausência para se revelar, paradoxalmente, um gesto extremo de liberdade e de amor. A narradora acolhe a decisão dos pais sem a simplificar nem a absolver; procura antes compreendê-la na sua radical humanidade. “Para que haja vida, é necessária a separação”.
“Escrito Com Sangue Na Água” é um livro com uma forte dimensão emocional que surge dos factos, mas também da prosa de Maria Grazia Calandrone, fazendo uso de uma matriz poética e profundamente imagética.











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