Filipe Homem Fonseca começa “Vénus Anatómica” (Abysmo, 2024) com uma frase, à laia de manual de instruções, onde avisa que o livro está dividido em cinco partes, podendo ser lido pela ordem que os leitores quiserem. Ninguém manda nos leitores, escreve. É uma declaração de intenções: o autor recusa a arquitectura corriqueira do princípio, meio e fim, construindo uma narrativa em que o leitor pega no fio por onde quiser, sem nunca saber onde está o início da meada.
Cada uma das cinco secções amarra um corpo a um elemento: começa num homem fugido, preso à terra e à pele, e acaba num cão morto, entregue ao céu. Entre os dois, um caçador partido ao meio, um pai que acorda, uma mulher finalmente inteira — personagens sempre pintadas com fogo, sangue e trevas.
O autor refere como influência a escrita de Donald Barthelme Jr., escritor norte-americano que se distinguiu pela rejeição das convenções narrativas e por um estilo ficcional insólito. Essa cartilha é aqui aplicada sem cerimónia: capítulos com títulos em italiano, alemão e sânscrito, texto que só se lê de cabeça para baixo, homens que mudam de pele como serpentes e algumas balas perdidas ao jeito de um film noir.
Filipe Homem Fonseca é argumentista, dramaturgo, poeta, realizador, um autor que muda de registo sem pedir licença. Diz, em entrevista, ter pouco interesse por literatura que não seja impura. “Vénus Anatómica” lê-se como prova disso: um livro que mistura línguas, constrói estranhas redes de significados e pede emprestado a Barthelme o desrespeito pelas normas do conto tradicional.
Há um preço a pagar por tanta liberdade. “Vénus Anatómica” não se lê com facilidade. Falta-lhe, por vezes, o tal fio que agarra o leitor. As imagens acumulam-se, os corpos sucedem-se, mas o sentido chega mais por sensação do que por narrativa. Quem procurar enredo sai desiludido; quem se entregar às imagens, encontra um livro lúdico que brinca com as palavras como quem pinta uma tela abstracta de cores fortes, terrosas, sanguíneas.
“O cão, morto” fecha o livro e, dentro dele, mora um capítulo chamado “Ressurrezione”. O primeiro parágrafo está impresso de cabeça para baixo: para o ler, o leitor tem de inverter o livro, como se virasse a terra ao contrário para encontrar o que está debaixo dela. A morte, neste livro, é semente. No sítio onde tudo parecia terminar, mora a ressurreição.











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