O escriba confessa: pouco tinha ouvido do projecto; pouco tinha lido sobre o dito cujo. E alguma expectativa convivia de perto com um irracional receio (temendo demasiada leveza, simplismo, contaminação excessiva de easy listening… enfim, pré-conceitos de que ninguém está a salvo). O nome por extenso poderá ser Spontaneous Music Live (homónimo do registo gravado mais recente), mas atendem por SML. Este novo quinteto de Los Angeles foi a escolha de Rui Neves, Programador do Jazz em Agosto, para encerrar a edição de 2026, a 42ª.
A noite começou com o sintetizador de Jeremiah Chiu, algo espacial, mas com ritmo, uma progressão lenta, acompanhada pela bateria de Booker Stardrum, inicialmente percutida com as mãos. Junta-se o saxofone de Josh Johnson, igualmente com parcimónia, com o quiteto evidenciando uma clara noção de integração entre todos. Completam o som colectivo a guitarra de Gregory Uhlmann e o baixo eléctrico de Anna Butterss.
Uma música dançante, construída com padrões repetitivos, apontamentos curtos de cada instrumento, sob um pano de fundo erguido pela tecnologia. Sem que nada disto faça sentir alguma artificialidade na sonoridade final, diga-se, em abono da verdade.

O que os SML fazem é uma reinvenção inovadora do Jazz, da improvisação, da Dance Music, do Trance, do Psicadelismo, da Música Electrónica, introduzindo Drum’nBass, Garage e outros estilos, lado a lado com uma improvisação constante, tudo isto à luz das possibilidades da tecnologia, das gravações e reproduções imediatamente posteriores, beneficiando de uma audição atenta ao que vai acontecendo, de modo a interagir em tempo real. Sempre sem acelerações desmesuradas.
Alguns já referiram o nome de Miles Davis ao falar desta banda… e não é nada mal visto. A exiguidade forçada, assumida e intencional das frases debitadas por Josh Johnson no seu saxofone, evocam precisamente a postura em palco adoptada pelo Mestre (cujo centenário se assinala, justamente, este ano), quando escutava mais do que tocava e pontuava o som do seu grupo com pequenos apontamentos – nunca demasiado extensos. Exemplo dessa abordagem foram os álbuns “Get Up With It” ou “On The Corner”. Em ambos os casos, com décadas de intervalo, essa depuração é uma questão programática essencial para entender a linguagem proposta.
«Na música electrónica, parece inerente aos instrumentos que as coisas sejam bastante rígidas e “cronometradas”, porque geralmente trabalhamos com sequenciadores. Tenho-me concentrado em equilibrar essa rigidez com algo mais fluido e, intencionalmente, mais humano. A improvisação não é algo que venha imediatamente à ideia quando pensamos em sequenciamento, mas é uma parte essencial da síntese, já que uma ligeira viragem de um botão pode nos levar para novos territórios. Tendo trabalhado com sintetizadores por mais de 20 anos, tenho um nível de conforto com o instrumento que me permite ouvir e responder no momento», declarava Jeremiah Chiu à página online In Sheep’s Clothing Hi/Fi, em Julho de 2024.

A noite decorreu num único tema, com diálogos seguros, envolvendo o homem do sintetizador, ora com o saxofonista, ora com o baterista, a coberto do manto continuamente tecido e aprimorado pelos restantes membros. A lógica circular das linhas criadas e mantidas oculta as suas subsequentes variações em pequenos detalhes, como um cântico tradicional que mudasse algumas palavras a cada volta, embora “tradicional” seja o termo menos apropriado para falar da música dos SML.
O projecto é recente, estrearam-se em 2024 com o álbum “Small Medium Large”, em finais de 2025 saiu o segundo, “How You Been” e, umas semanas depois, colocaram no mercado um registo ao vivo de Dezembro de 2025, 48 minutos distribuídos por dois temas, sessões de improvisação não editadas.
Há muito que o Jazz em Agosto se posiciona como um festival apostado em questionar o estado da arte, através da promoção de novos projectos, muitos deles assumidamente transgressores, face ao estabelecido cânone (qual? de quem?). Este ano não foi excepção, com a big band LUME, que nos fez sentir a relação com a Música Contemporânea (mais até que com os grandes agrupamentos de Swing e territórios contíguos), o quarteto The Sleep os Reason Prouces Monsters (onde o Noise e a manipulação de discos são novos alimentos) ou o quarteto de Tomas Fujiwara (embrenhado por trilhos de world music). Mas foi com os SML que a dúvida assumida se instalou: para onde vai o Jazz? Talvez para onde sempre foi… para todo o lado.

Um jardim completamente repleto e uma recepção calorosa da audiência deram origem a um encore, tocado com a toda a energia a dedicação. O início remetia para um Space Disco viciante. O saxofone interveém em pequenas frases, mas, muito do tempo, Josh Johnson limita-se segurá-lo, escutando, processando mentalmente o que o rodeia. A bateria de Booker Stardrum, que já trabalhou com o guitarrista Lee Ranaldo, dos Sonic Youth, dança sobre todos nós. Os padrões gerados e debitados pelo sintetizador de Jeremiah Chiu absorvem o Groove colectivo, espelham-no, devolvem-no, como quando capta o som de Johnson e o manipula. os cinco reagrupam-se, paulatinamente, prosseguem, metódios e alinhados, vão abrandando o ritmo… Stardrum agita uns chocalhos… as palmas finais acolhem o desenlace da viagem. O escriba saiu rendido.
Fotos: Petra Cvelbar – Gulbenkian Música











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