É já um dos maiores destaques do ano editorial, isto no que diz respeito ao universo dos comics e dos super-heróis. “Supergirl: Mulher do Futuro” (Devir, 2026) reúne, em capa dura, os oito números da mini-série original, que conta com argumento de Tom King, ilustrações de Bilquis Evely e cores de Matheus Lopes, num cruzamento perfeito entre fantasia e ficção científica.
No centro da história está Kara Zor-El, mais conhecida como Supergirl, que à semelhança de outros heróis carrega uma profunda dor interior: viu o seu planeta – Krypton – ser destruído, sendo enviada para a Terra numa missão para proteger um primo – o Super-Homem – que acabou por nunca precisar da sua ajuda. Ao invés disso, tem vivido aventuras extraordinárias a saltar de planeta em planeta, carregando o seu poder em sóis como quem recarrega os seus carros eléctricos em postos de gasolina (ou na garagem de casa).

Num desses carregamentos, quando se encontrava descontraidamente numa taverna local a deixar-se levar pelo embalo etílico, acaba por interceder a favor de uma jovem, que procurava um mercenário para vingar o assassinato do seu pai, às mãos do Krem das Colinas. Krem que, depois de uma emboscada à Supergirl, acaba por entrar na nave desta, que estava já em contagem decrescente e com destino marcado, deixando a super-heroína a braços com uma ressaca danada e uma jovem que nem por nada desiste de fazer dela o seu veículo de vingança. Essa jovem dá pelo nome de Ruthye, e é ela a narradora desta história, alguém com o dom da palavra, o poder da persuasão e uma capacidade fora de série para contar histórias, conferindo a esta série o embalo da grande literatura.

Numa perseguição onde terão de contar com os transportes públicos e “os inimigos constantes chamados tédio e mau cheiro”, Ruthye e a Supergirl irão passar por planetas devastados pelos Brigadas de Borband, que tomaram Krem como um dos seus, dedicando-se ao puro exercício do mal.
Os desenhos são incríveis, fazendo por vezes lembrar o espanto da imperdível Saga – série da dupla x e x -, mas há aqui muito mais poesia e menos rock n´ roll. Os tons remetem-nos para o imaginário de Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda – ou de outras sagas ancestrais -, com variações de cor que acompanham as subidas e descidas de acção, sempre com um certo exotismo. Há um retrato denso do mal, mas elege-se a compaixão, a justiça, o amor e a entreajuda como os sentimentos que fazem de nós humanos… ou super-heroínas. Vai estar, certamente, nas listas dos melhores livros de banda desenhada de 2026.











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