Uma expressão como “linha de raciocínio” associa, implicitamente, noções de verticalidade e articulação ao processo de reflexão – fios de prumo do intelecto, dir-se-ia. Que expressão poderá traduzir, então, a perturbação do raciocínio quando a atenção é pulverizada pelo zapping constante a que apelam todos os ecrãs que nos rodeiam?
“Fios de Prumo” (Gradiva, 2026), de Jorge Gomes Miranda, é um libelo contra a alienação que se infiltra no quotidiano, insidiosamente, sob o pretexto da distracção e do divertimento. Uma poesia fragmentada que nos confronta com o caos extenuante de um ruído de fundo que nada diz. Mas, também, uma recordação de que outro mundo é possível.
O tom geral é deveras sombrio. Logo no primeiro poema, somos transportados para um ambiente urbano, frio e artificial, carregado de negrume. Na cidade, ou é noite, ou as nuvens são escuras, as flores são de plástico, e os dispositivos electrónicos ligam à vigilância, à solidão, ao medo. “Em terrenos ariscos à luminosidade / a dor vai-se construindo a si própria”. No “teatro sem memória”, predomina a sensação de desamparo.
Se, em “Emoção Artificial” (ler crítica), a Humanidade era observada do ponto de vista das máquinas, ela é aqui dissecada, sobretudo, pelo seu comportamento dos dois lados dos ecrãs. As máquinas continuam presentes, por vezes animalizadas – como as gruas, comparáveis a “animais de pescoço longo farejando / o sentido das nuvens errantes” – mas sobretudo como ferramentas da nossa própria aniquilação, biológica e espiritual: as motosserras que decepam árvores, o telemóvel que reproduz os cantos dos pássaros, a televisão que mantém o país na ordem através das emissões de futebol. Pouco resta de telúrico para além do que persiste na memória. E, todavia, não se trata aqui de demonizar as máquinas, os ecrãs, ou a multitude de gadgets e apps a que acorremos para provarmos que somos modernos, mas sim de apontar a forma como o “tempo de desapegos e cansaços” que com eles criámos promove a desatenção para com os gestos, as palavras e os olhares dos outros.
Muitos poemas possuem títulos que remetem para canais e programas televisivos. Alguns prestam-se a interpretações mais directas, como “Edvard Munch, Rai 5 HD” – poema sobre a solidão que termina com a palavra “grito”. Outros reproduzem discursos tantas vezes transmitidos em reportagens e fóruns de opinião. A ironia está presente, por exemplo, numa “Ode à televisão”. As memórias da infância, essas, surgem como um registo dos anos 70 na RTP Memória.
Ao desalento, escapa uma paragem na RTP Açores. Escapa a procura de “clareiras na escuridão” e as possibilidades positivas do que poderia ser uma televisão do futuro, por mais improvável que pareça. Escapa o amor e os…
“Encontros que existem apenas para
serem um dia poema. E que contrariam
o sem sentido e o nada da existência.
Capazes de transformar o pessimismo,
não em simples e espontâneo optimismo,
mas em abertura, claridade, imprevisto.”
Encontros que podem assumir a forma de poemas.











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