Já foi várias vezes visto neste festival mas, desta vez, chegou com um projecto em nome próprio, expondo a sua faceta de compositor: Clone Row, assim se apresentou o quarteto que, em 2025, lançou um álbum, vindo defendê-lo este ano ao Jazz em Agosto, na Fundação Calouste Gulbenkian.
Smith integra o círculo de músicos que toca e grava com John Zorn e, acima de tudo, deixou-nos memórias inolvidáveis ao acompanhar Marc Ribot nesse trio maravilha que dá pelo nome de Ceramic Dog. O mesmo Ribot que, para o disco publicado por este projecto, o descreveu como «uma experiência pós-punk, pós-Dave Brubeck, pós-trip-hop com forma clássica».
O cerne da estrutura passa pela interacção entre duas guitarras, tocadas com uma abordagem distinta. O inglês Liberty Ellman (n. 1971) revela-se mais interventivo e senhor de um fraseado mais aguçado. Membro dos Zooid, equipa de combate liderada pelo veterano Henry Threadgill, já trabalhou com Steve Coleman, Ben Golberg, Steve Lehman, Rudresh Mahanthappa, Myra Melford, Butch Morris ou Wadada Leo Smith, entre outros. Por seu lado, Mary Halvorson, uma das estrelas do Jazz de hoje (e que já tocou neste festival por diversas vezes, com distintos agrupamentos, trazida pela primeira vez num colectivo de Anthony Braxton), mostrou-se mais calma a contida, sustentando o seu discurso sonoro numa lógica de limpidez e harmonias consonantes.

O quarteto completa-se com o contrabaixo de Nick Dunston que, com apenas 30 anos, já trabalhou com diversos músicos de excepção, como Marc Ribot, Craig Taborn, Dave Douglas, Darius Jones, Vijay Iyer, Elliott Sharp ou Moor Mother.
Ches Smith alternou entre a bateria e o vibrafone, suportando também as deambulações do colectivos na utilização de uma caixa de ritmos. Breve opinião redundantemente pessoal (não são todas?), para considerar que talvez esse artifício electrónico fosse dispensável.
O concerto começou em modo calmo, com um ligeiro e discreto toque de Calipso, apresentando-se como uma espécie de lounge music desenvolvida a partir de frases e soluções técnicas elaboradas. A construção adensa-se gradualmente, até um desenlace natural. Esta não é uma música que se alimente de surpresas e súbitos enviesamentos, mas do seu equilíbrio próprio e interno.
O tema seguinte arranca com a referida batida cibernética, em contraponto com o contrabaixo de Dunston, tocado agilmente com o arco (algo que, como se fará notar ao longo de todo o concerto, parece ser uma das suas especialidades). Já aqui se começa a sentir a tal dualidade, o tal complemento entre as duas guitarras, articulando alguma rudeza, um maior arrojo, pela parte de Liberty Ellman, dialogando com uma certa doçura, um frasear linear e límpido, mantido por Mary Halvorson.

Uma melodia clássica, posta a decorrer com uma abordagem assumidamente contemporânea, seria uma das formas de descrever o arranque do terceiro tema da noite. Novamente, cabe a Ellman introduzir alguma distorção, enquanto Smith comprova que as suas competências incluem uma noção de ritmo invejável e irrepreensível. As guitarras lideram a cavalgada sonora que se segue, Dunston manobra o arco com mestria, Smith explora o vibrafone, investigando os efeitos de diferentes pares de baquetas.
Daí a pouco, a electrónica utilizada remete para o ambiente de um antigo jogo de computador, devidamente distorcido, a bem da realidade contemporânea. O vibrafone mostra-se celestial, as guitarras alinham-se numa opção mútua de contenção, tocadas com parcimónia. Uma música fragmentada, com sequências mínimas de notas, em oposição a um contrabaixo bem vivo e que aproveita para inflar o colectivo.

Ches distribui o seu saber ao longo de cada composição, percorrendo as possibilidades da bateria com toda a naturalidade, demonstrando a cada passagem porque é um dos mais interessantes bateristas da nova vaga de músicos. No vibrafone mostra-se mais contido, apostando essencialmente em bolsas de acordes e passagens transversais, que acolhem o cruzamento das duas guitarras. A electrónica é um cenário assumidamente artificial, nunca se reclama como um protagonista exigente e autónomo, mas muda o contexto e a interpretação do que escutamos, como uma fotografia a que alteramos o fundo numa aplicação, mantendo a sua génese mas transportando a sua história para uma nova vida. Assim funciona a aparente simplicidade desta música, talvez adequada para captar novos ouvintes de Jazz, por vezes receosos da complexidade que alguns músicos demonstram na sua execução (a sugestão é do crítico Aloysius Ventham).
Oito temas, mais um encore (terão tocado todo o álbum e dois temas novos), “Sustained Nightmare” (adequado título para encerrar). Os insectos dançam à luz dos holofotes, somos envolvidos numa toada onírica, onde são instalados os quatro músicos de Clone Row (cujo nome é uma corruptela da expressão Tone Row, cunhada para definir o sistema dodecafónico de Arnold Shoenberg). Mary Halvorson faz as honras do solo mais destacado do tema, com doçura, Liberty Ellma consolida a estrutura, um pouco mais rugoso, confirmando a necessidade de contraste permanente entre as duas guitarras, Nick Dunston percorre o braço do contrabaixo, sem surpresas nem indecisões, a necessária cola entre as partes envolvidas, e Ches Smith dissipa qualquer dúvida que possa ainda haver sobre a capacidade de dialogar constantemente com a bateria. E nós saímos. Em paz.
Fotos: Petra Cvelbar – Gulbenkian Música











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