Comecemos pelo mais importante. “Céleste e Proust” (Iguana, 2025) foi uma das mais incríveis novelas gráficas com publicação nacional em 2025. Uma edição em capa dura, num papel brilhante e de boa gramagem, que se lê como quem olha demoradamente um quadro no museu.
No centro da história, quase uma homenagem póstuma, está Céleste Albaret, uma mulher anónima cuja presença acabou por se tornar indispensável para Marcel Proust, autor – entre outras obras – desse hercúleo romance – distribuído por sete volumes – chamado Em Busca do Tempo Perdido, que muitos leitores vão adiando como um projecto literário para a reforma.

De tímida governanta, Céleste acabou por vir a desempenhar um papel de confidente e mesmo de colaboradora, capaz de aturar as muitas manias de um escritor com que não era fácil lidar – e que tinha de sobra manias, debilidades (verdadeiras mas sobretudo inventadas), maneirismos e caprichos. “Sabes, ele precisa de alguém, é incapaz de cuidar de si. Faz lembrar aqueles bibelôs dos ricos que se colocam numa redoma para não se partirem…”, ouve-se da boca de Céleste, que a dado momento acaba por se despedir por exaustão, apontando a um regresso triunfal num momento em que a balança do poder estava já mais equilibrada.

As ilustrações de Chloé Cruchaudet são de ficar de queixo caído, aguarelas que nos transportam para uma história feita de cumplicidade – muitas vezes silenciosa -, encontrando-se também uma variação no estilo do desenho e na disposição das vinhetas, muitas vezes ao encontro de um certo lado sonhador, ao estilo de uma Amélie Poulain mais contida mas com o mesmo grau de atrevimento. Um triunfo absoluto da arte de bem desenhar – e pintar.











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