A maioria dos escritores contam histórias. Com “A Prova” (Cavalo de Ferro, 2026), César Aira parece mais interessado em testar até onde uma história consegue ir antes de implodir. Publicada originalmente em 1992, esta é uma obra curta – não chega a 90 páginas -, vertiginosa e deliberadamente desconcertante, funcionando simultaneamente como narrativa, ensaio filosófico e sátira social. É um livro que se lê numa tarde, mas cuja estranheza permanece durante muito mais tempo.
A premissa é aparentemente simples: Marcia, uma adolescente de classe média, é abordada na rua por duas jovens punks, Mao e Lenin, com uma delas a declarar-lhe amor imediato e absoluto, propondo-lhe uma relação sem rodeios nem fases intermédias, até que decide, em conjunto com a amiga, dar uma prova do seu amor. O que poderia tornar-se uma história sobre desejo, identidade ou descoberta sentimental transforma-se, porém, rapidamente noutra coisa mais “absurda”, com a narrativa a abandonar qualquer promessa de realismo psicológico para entrar numa espiral de acontecimentos cada vez mais improváveis, até culminar numa explosão de violência e caos urbano.
O leitor desprevenido pode sentir que está perante dois romances diferentes – na primeira metade, predominam os diálogos, as discussões sobre amor, autenticidade, consumo e marginalidade; na segunda, o livro parece acelerar subitamente para um território próximo do delírio. Essa sensação de ruptura é precisamente um dos mecanismos centrais da escrita de Aira, uma vez que o autor cultiva aquilo a que chama “fuga para a frente”, a recusa de regressar atrás para corrigir ou reorganizar a narrativa, preferindo empurrá-la continuamente para novas direcções, improvisando uma maneira de sair dos impasses em que se colocou com o que escreveu. O resultado é uma literatura que avança por mutações sucessivas, onde cada página parece desafiar a anterior.
O romance parece funcionar, também, como reflexão sobre a artificialidade das convenções sociais, com Mao e Lenin a aparecerem inicialmente como figuras marginais, quase caricaturais, tornando-se progressivamente agentes de uma crítica feroz ao mundo burguês representado por Marcia. O consumo, a aparência, as regras de comportamento e até a própria ideia de normalidade são colocadas em causa, através de diálogos que oscilam entre a provocação intelectual e o autêntico ilógico.
César Aira nunca deixa que o leitor se instale numa interpretação “confortável”, ou que haja uma “normalização” da narrativa. Quando parece encaminhar-se para um romance (lésbico), muda repentinamente de direcção. Quando parece querer construir uma alegoria política, destrói-a. Quando parece querer propor uma reflexão filosófica, introduz uma sequência quase grotesca de acção.
Há, também, uma dimensão profundamente juvenil, não porque o livro acompanha adolescentes, mas por encerrar em si uma energia anárquica que a literatura não costuma mostrar. Em vez de controlar os excessos amplifica-os e, em vez de procurar coerência, celebra o nonsense.
“A Prova” não é uma obra que agradará a todos os leitores. Quem procura uma leitura “típica” ou uma intriga construída segundo padrões clássicos, poderá sentir-se frustrado, uma vez que César Aira sacrifica frequentemente a consistência narrativa em favor da invenção permanente. Porém, julgar “A Prova” pelos critérios do romance tradicional seria um erro, uma vez que o livro não pretende representar a realidade, antes – quiçá – mostrar a velocidade com que a imaginação a pode deformar. Breve, provocador e imprevisível, este romance demonstra que a verdadeira prova a que o título alude talvez não seja a do amor, mas sim a da própria literatura.











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