“Como Se Fôssemos Vilões” (Asa, 2022) é um romance que envolve o leitor desde as primeiras páginas, conduzindo-o para um universo intenso, teatral e profundamente psicológico, onde há mistério, obsessão, rivalidade e amizade. A narrativa densa é envolvente, onde o teatro e a vida deixam, progressivamente, de ter fronteiras definidas.
O romance acompanha um grupo de estudantes de artes dramáticas numa prestigiada academia, jovens talentosos que vivem mergulhados no universo de Shakespeare, interpretando incessantemente personagens marcadas pela ambição, o desejo, a inveja e a tragédia. A presença de Shakespeare não é apenas uma referência, é inerente à estrutura emocional do romance. Ao virar as páginas, o leitor começa progressivamente a interiorizar que os jovens deixaram de interpretar tragédias para começarem a vivê-las, e também que a representação invade a realidade, levando os protagonistas até um território emocional cada vez mais sombrio.
Existe uma tensão constante, quase silenciosa, que atravessa toda a narrativa. O leitor sente desde cedo que algo está prestes a ruir, numa sucessão de relações complexas, segredos e conflitos emocionais que tornam impossível abandonar a leitura. O ambiente académico fechado, elitista e intensamente competitivo contribui para essa sensação de claustrofobia emocional, onde cada personagem parece esconder algo de si própria.
As personagens são um dos aspectos mais fascinantes da obra, nenhuma é inteiramente inocente ou totalmente condenável. Todos os estudantes vivem numa permanente encenação, moldando a própria identidade através dos papéis que representam. Oliver Marks, jovem actor a estudar Shakespeare numa escola de artes de elite – e também o narrador -, surge como uma figura simultaneamente observadora e vulnerável, tentando compreender os acontecimentos que o rodeiam enquanto se deixa envolver por eles. À sua volta, cada membro do grupo ocupa um lugar quase shakespeariano: há o líder carismático, o rebelde impulsivo, a figura sedutora, o estratega silencioso. Contudo, M. L. Rio evita os estereótipos fáceis, oferecendo personagens emocionalmente ambíguas, humanas e profundamente marcadas pelas suas fragilidades.
A autora mostra um profundo conhecimento do universo teatral e da literatura clássica. O resultado é um romance sofisticado, intenso e emocionalmente absorvente, que combina o suspense psicológico, o drama académico e uma reflexão sobre identidade, performance e ambição.











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