Clarice Lispector usou, em tempos, a imagem de um copo cheio como metáfora para algo semelhante a uma felicidade insuportável. Por oposição, outra escritora brasileira, Natalia Timerman, recorre a um “Copo Vazio” (Tinta da China, 2026) como símbolo do desalento causado pelo fim de uma relação amorosa – e a consequente destruição de um projecto de futuro que se antevia feliz.
É precisamente no futuro que a autora, médica psiquiatra e doutoranda em literatura, inicia a narrativa, prevendo um encontro casual, num supermercado, entre a sua protagonista, Mirela, e o homem que a abandonou dez anos antes. Os capítulos alternam entre um “Antes”, um “Hoje” e um “Depois”, destacando-se a reconstituição da história de uma paixão através do “Antes” e a descrição do desamparo da perda no presente. Adicionalmente, há capítulos que exploram o “Se” de várias possibilidades não concretizadas.
A perspectiva que acompanhamos é sempre a de Mirela, uma arquitecta bem-sucedida que deseja para si um quotidiano diferente da mediocridade que atribui ao da mãe, cuja vida considera ter sido desperdiçada. Os seus desejos parecem realizar-se quando conhece Pedro, que a atrai tanto pela beleza como pela pose insegura e desajeitada, activadora do instinto cuidador dela. Mais tarde, reflectirá nos indícios que não soube ler: as incongruências nas afirmações dele, ou o estranho desconforto no último dia vivido em comum. O certo é que Pedro se afasta bruscamente, rompendo todos os planos, e isso desequilibra Mirela, afundando-a em vagas sucessivas de esperança e cansaço, numa busca incessante pelo homem amado.
O enredo desenrola-se num espaço urbano e assume um forte cunho de modernidade: o par é reunido por uma aplicação, e é através de diversas outras aplicações que Mirela segue obsessivamente Pedro após a ruptura, procurando contacto, esperando com ansiedade uma reacção dele. Porém, a mágoa transmitida a cada página é intemporal, tal como o são as inevitáveis interrogações sobre o que é, afinal, a felicidade.
Como viver com a impressão de que o tempo transcorrido após um momento-chave é “um mal-entendido, um desvio do que deveria ter acontecido certo desde sempre”? Como desenvolver um novo relacionamento amoroso quando a memória enverniza o passado e o faz parecer melhor do que qualquer hipótese presente? Os caminhos não percorridos dão lugar a outros, mas talvez a vida não baste para pôr fim as todas as interrogações. E, contudo, talvez o tão sonhado reencontro, a acontecer, se limite a um cumprimento banal. Afinal, a realidade desdenha o que se toma por destino, ainda que, para o bem e para o mal, deixe a memória como lugar seguro, “uma chave para entrar no terreno do que sempre nunca será”.











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