É, no panorama dos festivais de música nacionais, aquele que vê desaparecer os passes gerais como quem despacha garrafas de água fresca em dias de quarenta graus à sombra. Espreitámos o cartaz de uma ponta à outra e seleccionámos uma dúzia concertos para fazer a festa nesta edição do NOS Alive, que toma conta do Passeio Marítimo de Algés nos dias 9, 10 e 11 de Julho.
Para um leigo na matéria, Twenty One Pilots poderá soar a nome de companhia aérea, mas a verdade é que estamos na presença de uma dupla, formada pelo vocalista Tyler Joseph e o baterista Josh Dun. Do seu algo tresloucado universo musical, fazem parte uma pop com glitter, um rock mais ou menos alternativo, alguns traços de hip hop e sintetizadores que carregam uma certa nostalgia, ainda que seja difícil identificar o ano a que nos conduziria esta viagem no tempo. “Breach”, a mais recente rodela, parece encerrar uma narrativa conceptual, um pouco como aconteceu com o “Regresso do Rei” de Tolkien. Veremos para que novo reino nos conduzirão Tyler e Josh – a começar com este concerto que promete muita animação e fogo de artifício.
Longe vão os dias em que, segundo reza a lenda, Nick Cave – então ladeado pelos Birthday Party – escrevia com o próprio sangue, compondo versos caóticos onde procurava um lar espiritual alternativo a todos os cânones religiosos. Após a trágica morte do filho, Nick Cave – na companhia dos Bad Seeds – tem feito de cada concerto – e de cada novo álbum – uma celebração, em que cada canção se saboreia como uma hóstia sagrada. Se andam à procura de transcendência, peguem no vosso livro de Salmos e juntem-se ao culto Caviano.
Os The Royston Club chegam de Wrexham, País de Gales, e são formados por Tom Faithfull (voz e guitarra), Ben Matthias (guitarra) e Dave Tute (baixo), trio que se conhece praticamente desde o jardim de infância, e Sam Jones (bateria). A sua música tem tudo aquilo que se exige de um indie rock efervescente: riffs vertiginosos, melodias com muita electricidade e refrões para se cantar a plenos pulmões. Gales pode não estar no Mundial, mas estes rapazes sabem dar toques numa bola.
Em 1994, depois da trágica morte de Kurt Cobain, Dave Grohl formou os Foo Fighters, trocando a bateria pela guitarra e chegando-se à frente como vocalista. Anos depois, os Foo Fighters tornaram-se numa das mais celebradas bandas rock do planeta, transformando canções como “Everlong” ou “The Pretender” em hinos de estádio. Há quem diga que são uma das melhores bandas ao vivo, por isso seria uma heresia perder este concerto. Ainda para mais quando a banda deixou este aviso: “Take Cover, UK and Europe…”.
O norte da Europa é conhecido pelos seus policiais carregados de negrume, mas é também dessa geografia que nos chega um fenómeno solar chamado Zara Larsson. A sueca tem alimentado a pop a bebidas energéticas com um cheirinho de vodka, através de um electro-pop carregado de purpurinas e enfeitado com letras onde há muito de auto-ficção, discorrendo-se sobre os dramas das relações amorosas, escolhendo-se o feminismo como corrente política e elegendo-se a diversão como objectivo de vida. O sol da meia-noite vai brilhar alto no palco Heineken.
Os Wolf Alice são uma daquelas bandas que, desde o início, pareceu deparar-se com uma crise de identidade, ao estilo de um Stieg Dagerman sem tendências suicidas. Ao longo de uma carreira de mais de década e meia, experimentaram a folk tresmalhada, a electricidade do grunge, a pop algodão-doce ou o rock mais alternativo. Uma busca que acabou por os conduzir a “The Clearing”, disco que os catapultou para a Liga dos Campeões musical. Um álbum que carrega em si alguma nostalgia, como se folheassem álbuns de fotografias antigas e recordassem tudo aquilo que os levou a um disco quase perfeito. Nunca o amadurecimento foi tão bom de se ver e ouvir.
Florence + The Machine
Em 2022, depois de nos termos sentido transportados para o culto Florenciano, escrevemos que o concerto de Florence + The Machine ficou “entre a afronta adolescente do Capuchinho Vermelho, o poder incendiário da sacerdotisa Melisandre de Asshai e a graciosidade de uma bailarina do Teatro Bolshoi”, tendo Florence dado cartas na companhia de “uma máquina indestrutível e com sangue no lugar de óleo a correr-lhe nas juntas”. No ano seguinte, a sua vida sofreu um abalo, com uma gravidez ectópica e um consequente aborto espontâneo que quase lhe custou a vida, sendo salva uma cirurgia de emergência. Um acontecimento que foi a centelha para “Everybody Scream”, o seu 6º e algo tenebroso longa-duração, que bem a propósito foi lançado no Halloween de 2025. Preparem-se para mais um momento de catarse.
O título que pesa sobre os seus ombros é de Lorde, mas a honraria mínima seria atribuir-lhe o ceptro e a coroa de rainha. Desde a adolescência que a artista neo-zelandesa nos tem brindado com alguns dos melhores álbuns da história da pop, e até mesmo o patinho feio – “Solar Power” – tem canções para ouvir e emoldurar com orgulho. Chega ao NOS Alive com o novo “Virgin”, disco que confirma que mora aqui uma das melhores letristas e compositoras da pop moderna. Pode bem ser um dos melhores concertos desta edição.
Matt Berninger é a alma atormentada dos The National, um tormento que o tem acompanhado numa carreira a solo que leva já duas rodelas publicadas: “Serpentine Prison” (2020) e “Get Sunk” (2025). A escrita poética e o humor com arestas continuam presentes e, se estiverem numa de baixar a tensão arterial e mergulhar num buraco negro, este é definitivamente o concerto para se atirarem de cabeça.
Foram um meteorito da música nacional, uma das bandas nascidas em Portugal que conseguiu criar um senhor hype além-fronteiras, à boleia dos discos “From Buraka to the World” (2006), “Black Diamond” (2008), “Komba” (2011) e “Buraka” (2014). Após um longo hiato que teve a sombra de um ponto final, Branko, Riot, Conductor, Kalaf e Blaya voltam a pisar um palco, naquela que promete ser uma festa de arromba. From Algés To The World, Buraka Som Sistema.
Numa primeira audição, é difícil não lhes apontar o falsetto dos Parcels ou, sobretudo, os riffs com assinatura Daft Punkiana, mas a verdade é que os Midnight Generation têm acrescentado ao seu disco-pop uma certa vibe mexicana, país de onde são naturais. Um concerto para quem gosta de tequilla e de sintetizadores que trazem de volta os anos 1980.
Tomora é o improvável duo que junta Tom Rowlands, dos The Chemical Brothers, e a cantora Aurora. Estrearam-se este ano com o longa-duração “Come Closer”, um disco que funde a música electrónica com a pop no qualnão faltam sintetizadores metálicos, batidas insanas, gritos tribais e melodias enganadoramente suaves. Não seria difícil imaginar “Come Closer” como a banda sonora que acompanharia a chegada de uma força alienígena ao planeta Terra. Promete ser um intenso Encontro Imediato de Terceiro Grau, só não se esqueçam das palavras-passe: we came in peace.











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